sábado, 2 de outubro de 2010

Ele joga em todas

Fernando Catatau, líder do Cidadão Instigado, se destaca como um dos mais atuantes nomes da nova geração de independentes. Ele toca, canta, compõe para cinema e produz.


Há nove anos radicado em São Paulo, o vocalista e guitarrista cearense Fernando Catatau, de 38, sabe que é essencial a migração para que as coisas realmente aconteçam. “Para trabalhar com música no Brasil, tem que ser em São Paulo, mesmo sendo uma cidade saturada de gente. Em outro cantos, parece que a gente está sempre esperando. Para mim, é mais fácil tocar no Nordeste estando aqui do que vivendo lá”, afirma o líder do grupo Cidadão Instigado. E trabalho, vale dizer, é coisa que não está faltando a ele.

Além de liderar uma das formações mais cultuadas do meio independente, Catatau é nome recorrente na ficha técnica de álbuns de artistas igualmente bem falados. Produziu Iê iê iê, novo trabalho de Arnaldo Antunes, participou ainda dos CDs mais recentes de Céu (Vagarosa) e Otto (Certa manhã acordei de sonhos intranquilos), isso só para falar de discos lançados em 2009. No ano que passou ele ainda lançou o terceiro trabalho do Cidadão, Uhuuu!, trabalho solar (o título é um grito comum entre os surfistas) que fez parte da maior parte da lista dos melhores da temporada.

Ouvidos mais atentos não têm dificuldade em reconhecer a colaboração de Catatau. São guitarras psicodélicas, cheias de textura e emoção, que criaram, dessa maneira, uma marca bastante singular. “Várias coisas influenciaram na minha maneira de tocar. Talvez a principal delas tenha sido o fato de eu assumir minhas dificuldades e erros. Não consigo ser muito rápido, então comecei a pensar como poderia me dar uma rasteira e fazer isso funcionar.” Ele também toca com a mão (não usa palheta) e, como qualquer bom guitarrista, está sempre atrás do instrumento perfeito. Sua coleção já soma 15 guitarras, as preferidas uma Hofner e uma Giannini Craviola.

Mesmo que tenha saído de Fortaleza em busca de um lugar na música em São Paulo, o Nordeste sempre esteve (e continua), ligado a Catatau. Foi o pernambucano Otto, outro migrante, o primeiro artista com quem gravou. Era o ano de 2000, e foi convidado para gravar com ele. Depois vieram outros com quem tocou, como Vanessa da Mata, Zeca Baleiro (integrou a banda dos dois cantores), mais Los Hermanos e Nação Zumbi. Hoje, além do Cidadão, toca nas bandas de Otto e no coletivo Instituto. “Minha prioridade é o Cidadão Instigado, mas, como trabalho com pessoas também do meio independente, consigo conciliar.”

Além de Uhuuu!, o grupo lançou O ciclo da de.cadência (2002) e Cidadão Instigado e o método Túfo de experiências (2005). Cada disco traz uma característica própria. Enquanto o primeiro tinha sonoridade mais intensa, quase épica, o segundo bebeu no romantismo. Catatau assina letra, música e produção, tanto que sempre se falou do Cidadão como sendo somente ele. “Isso aconteceu porque passei um tempo só compondo, depois montei diferentes formações. E, querendo ou não, o trabalho é baseado na minha pessoa. Mas com o tempo o Cidadão acabou se transformando numa banda e todos os músicos a assumiram como tal. Não existe essa de funcionário, do cara que vai lá e simplesmente toca. Hoje, todo mundo se importa.”

Esse “todo mundo” responde por Régis Damasceno (guitarra), Rian Batista (baixo), Clayton Martin (bateria e programações), Dustan Gallas (teclado) e Kalil Alaia (técnico de som e efeitos). Todos, a exceção de Clayton, que é paulistano, foram importados de Fortaleza. “A gente toca junto desde adolescente e todos não estão somente em uma banda. Eles também tocam com outras pessoas.”

MÚSICA VISUAL Outro lado do trabalho de Catatau é com o cinema, na confecção de trilha sonora. A inserção não foi difícil, já que sua música é bastante visual. “Quando comecei a compor, a ideia era fazer trilha para minhas letras. Depois, isso acabou se transformando e hoje em dia gosto de canções simples.” Esse lado cinematográfico, de acordo com ele, veio muito por influência do rock progressivo.

Na base da música do rock psicodélico do Cidadão Instigado está o Pink Floyd. Outros nomes que fazem parte da cartilha dele são Jimi Hendrix, Robert Smith (The Cure), Carlos Santana, Raul Seixas, Bee Gees e Roberto Carlos. O nome dele está na trilha de longas como Amarelo manga e Baixio das bestas (Cláudio Assis), Sólo Dios sabe (do mexicano Carlos Bolado) e vários curtas. Um deles, Os urubus só pensam em te comer, de Vanessa Teixeira, acabou dando nome a uma das canções de Catatau, que atualmente prepara a trilha do longa O transeunte, de Eryk Rocha.

O trabalho com Arnaldo Antunes – que acabou participando de Uhuuu!, assim como Edgard Scandurra e Karina Buhr, do Comadre Fulozinha –, que deu uma visibilidade maior para ele, foi, segundo Catatau, muito gratificante. “Tive liberdade para fazer o que quis. E foi ótimo, porque o Arnaldo é um ídolo. Tanto que até parei de escutar Titãs na época em que ele saiu. Com isso, acabou sendo fácil, pois fui com o coração, e não apenas como um funcionário.” Mesmo com uma produção tão prolífica, Catatau diz que a música não acontece para ele de maneira tão simples. “É sempre dolorido, tanto que cada música é uma agonia”, conclui ele.

(Mariana Peixoto - EM Cultura, 29/01/2010 10:31)

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