terça-feira, 5 de outubro de 2010

Cidadão Instigado…

Se é possível dizer qual banda brasileira desta década estará na memória dos brasileiros daqui uns anos sem dúvida nenhuma diria Los Hermanos. Não só pelo sucesso de crítica como pelo contato quase simbiótico com o público. Por outro lado, se me perguntassem qual banda estará no inconsciente coletivo da próxima geração da música brasileira, arriscaria Cidadão Instigado. As comparações, se é que podem ser possíveis sem soar vazias ou ridículas, param por aqui.

Fernando Catatau ( voz, guitarra e teclado), Regis Damasceno (guitarra, guitarra sintetizada, violão e vocal), Rian Batista (baixo e vocal), Clayton Martin (bateria) e Kalil Alaia (técnico de som e efeitos), são os elementos que dão forma à banda mais interessante do cenário brasileiro atual. Uhuuu!, o novo disco dos caras, não segue fórmulas. Pelo contrário, alimenta-se daquele universo caudaloso já esboçado em O ciclo da De.cadência e Método Tufo de Experiências e o expande. “Universo”, no caso, não é uma figura retórica. É antes a palavra que melhor sintetiza o conteúdo das letras de Catatau e a matriz sonora da banda.

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Em Método Tufo de Experiências era possível vislumbrar a densidade simbólica que as camadas sonoras e as letras evocavam. Agora em Uhuuu!, tudo se torna mais claro. As conexões entre o rock progressivo e o brega são iluminadas com um tom praieiro, por isso mais orgânicas e sorridentes. Mas ainda há espaço para as alucinações sartreanas de Catatau. O Nada, primeira faixa do disco, já desfia aquelas narrativas existenciais de um migrante lidando com a realidade de São Paulo, típicas do Cidadão, e se sai como uma introdução ao multiverso sonoro que vem a seguir.

Assim como universo, imersão não é só uma figura. É uma necessidade. É possível que quem não esteja familiarizado com a banda sinta certo estranhamento – com a voz fanha do vocalista ou com a sonoridade e as letras. Mas também é provável que já na terceira ou quarta faixa do disco, todo o estranhamento inicial tenha sido deglutido como componente essencial da viagem. A imersão é o dado mais valioso para entender o que as estranhas conexões jogadas a cada momento na cara do ouvinte querem dizer. Isso não quer dizer que Cidadão Instigado seja uma banda inletectualizada, pelo contrário. Nada mais intuitivo que um amálgama de Roberto Carlos e Pink Floyd - Escolher pra quê pode provar – ou soar como Dire Straits escapando de uma caixa de som em Belém do Pará. Tudo realmente muito estranho e intuitivo.

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O ápice de toda essa insana viagem sonora – conduzida pelos timbres surreais e bregas e pela guitarra psicodélica de Catatau – se dá sem dúvida em Como as luzes, Radiação na Terra e Deus é uma viagem – esta última, um delírio lisérgico que acaba num coro que poderia figurar num western spaggethi musicado por Ennio Morricone. As paisagens sonoras criadas pela banda chegam ao absurdo de um Moebius ou de supor Neil Young dançando reggae com uma nativa em Canoa Quebrada.

Cidadão Instigado é um universo imersivo multirreferêncial que deixa qualquer viajante mais atento extasiado e que deveria ser descoberta e assimilada por um maior número de pessoas, por uma questão de justiça – e (in)sanidade. Com certeza a banda mais interessante da cena atual – se não a melhor. Uhuuu!

(agosto 15, 2009 por Eduardo Pinheiro)

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