segunda-feira, 25 de outubro de 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

CELEBRAÇÃO PERNAMBUCANA NO ENCERRAMENTO DO REC-BEAT

Uma das atrações mais aguardadas da última noite do Rec-Beat é o cearense Cidadão Instigado. Fernando Catatau, guitarrista e líder da banda Cidadão Instigado, é um dos mais importantes artistas da primeira década deste século na música brasileira. Dois de seus discos encabeçam as listas de melhores lançamentos da última década. Seu mais recente disco “Uhuuu!” foi um dos vencedores do Prêmio Pixinguinha e traz um som orgânico e mais parecido com o tocado nos seus shows com uma energia alegre e canções mais ensolaradas. (http://recbeat.uol.com.br/)

COBERTURA do RECBEAT 2010: Jornal do Commercio

Cidadão Instigado manda bem o recado
(17 de fevereiro de 2010)

Outra banda que reuniu muitos fãs na noite de encerramento do RecBeat foi os cearenses da Cidadão Instigado. Após algumas apresentações no Estado, a mais recente delas durante a Feira Música Brasil, em dezembro, eles voltaram para tocar pela primeira vez durante o Carnaval (além do RecBeat, eles fizeram um show em Olinda, no Polo Fortim). “Já me falaram que isso não é música para se tocar em Carnaval. Mas é muito bom isso, muito bom tocar rock para esta multidão”, comemorou o vocalista da banda, Fernando Catatau, antes de tocar a música O pobre dos dentes de ouro, uma das mais pedidas por quem estava perto do palco.

Os fãs também cantaram os versos de músicas como O nada e Escolher pra quê?. Ao final, o público pediu bis e teve gente vaiando porque o desejo não foi atendido. - Eugênia Bezerra, jornalista.

Cidadão Instigado - Ao vivo em Olinda (2007)

Há tempos um blog morto postou os "Melhores Momentos" do show de Olinda do Cidadão em 2007. O arquivo com o áudio foi recuperado e está aqui. A qualidade não é profissional e nem está boa, mas dá para matar a curiosidade, por enquanto. Show da turnê do Método Tufo de Experiências (2005).


1) Os Urubus Só Pensam Em Te Comer
2) Te Encontra Logo
3) O Pobre dos Dentes de Ouro
4) Minha Imagem Roubada
5) Calma!

Cidadão Instigado no Festival Natura Nós



Scream & Yell fala sobre a performance do Cidadão no SWU

(foto por Liliane Callegari)
"(...) Voltando algumas horas atrás: Mallu Magalhães (toda linda) brigou com a microfonia e fez o que pode (e ela não pode muito) no Palco Oi, mas foi o Cidadão Instigado que fez bonito. Fernando Catatau, inspiradíssimo, descontou a raiva dos problemas com o som em sua guitarra, e o público ganhou riffs fortes e empolgantes."

- http://www.screamyell.com.br/

Catatau no SWU

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Cidadão Instigado…

Se é possível dizer qual banda brasileira desta década estará na memória dos brasileiros daqui uns anos sem dúvida nenhuma diria Los Hermanos. Não só pelo sucesso de crítica como pelo contato quase simbiótico com o público. Por outro lado, se me perguntassem qual banda estará no inconsciente coletivo da próxima geração da música brasileira, arriscaria Cidadão Instigado. As comparações, se é que podem ser possíveis sem soar vazias ou ridículas, param por aqui.

Fernando Catatau ( voz, guitarra e teclado), Regis Damasceno (guitarra, guitarra sintetizada, violão e vocal), Rian Batista (baixo e vocal), Clayton Martin (bateria) e Kalil Alaia (técnico de som e efeitos), são os elementos que dão forma à banda mais interessante do cenário brasileiro atual. Uhuuu!, o novo disco dos caras, não segue fórmulas. Pelo contrário, alimenta-se daquele universo caudaloso já esboçado em O ciclo da De.cadência e Método Tufo de Experiências e o expande. “Universo”, no caso, não é uma figura retórica. É antes a palavra que melhor sintetiza o conteúdo das letras de Catatau e a matriz sonora da banda.

cidadaoinstigado-uhuuu

Em Método Tufo de Experiências era possível vislumbrar a densidade simbólica que as camadas sonoras e as letras evocavam. Agora em Uhuuu!, tudo se torna mais claro. As conexões entre o rock progressivo e o brega são iluminadas com um tom praieiro, por isso mais orgânicas e sorridentes. Mas ainda há espaço para as alucinações sartreanas de Catatau. O Nada, primeira faixa do disco, já desfia aquelas narrativas existenciais de um migrante lidando com a realidade de São Paulo, típicas do Cidadão, e se sai como uma introdução ao multiverso sonoro que vem a seguir.

Assim como universo, imersão não é só uma figura. É uma necessidade. É possível que quem não esteja familiarizado com a banda sinta certo estranhamento – com a voz fanha do vocalista ou com a sonoridade e as letras. Mas também é provável que já na terceira ou quarta faixa do disco, todo o estranhamento inicial tenha sido deglutido como componente essencial da viagem. A imersão é o dado mais valioso para entender o que as estranhas conexões jogadas a cada momento na cara do ouvinte querem dizer. Isso não quer dizer que Cidadão Instigado seja uma banda inletectualizada, pelo contrário. Nada mais intuitivo que um amálgama de Roberto Carlos e Pink Floyd - Escolher pra quê pode provar – ou soar como Dire Straits escapando de uma caixa de som em Belém do Pará. Tudo realmente muito estranho e intuitivo.

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O ápice de toda essa insana viagem sonora – conduzida pelos timbres surreais e bregas e pela guitarra psicodélica de Catatau – se dá sem dúvida em Como as luzes, Radiação na Terra e Deus é uma viagem – esta última, um delírio lisérgico que acaba num coro que poderia figurar num western spaggethi musicado por Ennio Morricone. As paisagens sonoras criadas pela banda chegam ao absurdo de um Moebius ou de supor Neil Young dançando reggae com uma nativa em Canoa Quebrada.

Cidadão Instigado é um universo imersivo multirreferêncial que deixa qualquer viajante mais atento extasiado e que deveria ser descoberta e assimilada por um maior número de pessoas, por uma questão de justiça – e (in)sanidade. Com certeza a banda mais interessante da cena atual – se não a melhor. Uhuuu!

(agosto 15, 2009 por Eduardo Pinheiro)

UHUUU! vem aí

“Urru? U, érre, érre, u?”. Encontrei o Catatau no show do Tommy Guerrero e, depois de perguntar sobre o nome do disco novo, demorei pra entender, soletrando pra me certificar do que tinha ouvido. “Nao, U, agá, u, u, u”, disse, rindo, o Cidadão Instigado em pessoa. “Que porra é essa?”, perguntei no susto, e Fernando sequer desfez o riso do rosto para responder. “Porra, Matias, tu sabe que eu sou do body board, né?”. Pior que sei - Fernando realmente surfava nas praias de Fortaleza quando era adolescente, mas como um um grito de felicidade tão sincero se encaixa no conceito da banda prog-brega imaginada por por Catatau durante um surto de depressão quando se viu sozinho em São Paulo? Porque o Cidadão Instigado, conceitualmente, é isso: um sujeito oprimido por diferentes pressões (sociais, emocionais, políticas, psicológicas) que perde sua própria identidade a ponto de se assumir apenas como um cidadão instigado por tais pressões para conseguir manter um fio de sanidade (ou pelo menos foi isso que eu entendi entre vários papos que tive com o Catas). Semanas depois, há poucos dias, Uhuuu começa a dar o ar de sua graça com a extensa “Escolher Pra Quê?”, disponibilizada no MySpace do grupo há poucos dias. É uma faixa que já nasce clássica no repertório do grupo, pois saúda de forma exemplar alguns dos pilares da sonoridade do grupo - rock pra dançar pelo prisma do Pink Floyd (vocé sabe, o groove tenso de “Another Brick in the Wall Pt. 2″ e “Money” e aquela tensão de “Dogs” que já haviam feito “Os Urubus Só Pensam em Te Comer” um dos pontos centrais dos shows do Cidadão), a melodia com aquela latinidade Roberto Carlos via Odair José, arranjos e timbres assumidamente retrô, às vezes derrapando pro brega, o solo de guitarra dramático e com pena de si mesmo (George Harrison feelings) e o vocal indefectível de Fernando. E, no meio da música, surge um refrão que, além de redentor, ainda carrega - e explica - o título do álbum.

“Pra que tanta indecisão?
Uhuuu!
Se o sol está aí pra nos assar!
Pra que tanta indecisão?
Uhuuôu!
Se a chuva invade e alaga, como um grande mar?”

O título do disco do Cidadão tem mais a ver com a resposta moleque ao drama hamletiano. “Ser ou não ser? F.O.D.A.-S.E.”, grita Catatau descendo a onda em sua prancha de peito, lembrando daquele velho papo sobre o que realmente importa é a jornada e não o destino, e uma filosofia que carrego no peito - que o sentido da vida é uma emoção, e não uma explicação. Afinal, o que foi vivido foi sentido - uhuuu!

(Por Alexandre Matias: quinta-feira, 30 de julho, 2009)

domingo, 3 de outubro de 2010

Matéria na íntegra: O ESTRANHO MUNDO DE CATATAU

(Catatau, secundado por Clayton_clic Daniely Clarisa)

Como um fanho quase campeão de bodyboard da Praia do Futuro, Fortaleza, se tornou um dos compositores mais inventivos do país

(Por Ronaldo Bressane)

“Aos seus olhos eu sou apenas um incômodo que veio do nada para empestar o mundo.” Assim Fernando Catatau, 34, se apresentava em O método túfo de experiências, seu premiado álbum de 2006, considerado o título do ano pela APCA – e que colocou o guitarrista, compositor, produtor e cantor cearense no centro da cena musical brasileira. Perto de lançar o terceiro trabalho, o líder do Cidadão Instigado segue o mesmo incômodo – ou quase. “Sou um libriano obsessivo: fico totalmente focado num negócio, mas daí depois deixo pra lá. E nunca consigo decidir nada”, define-se, ecoando a característica de um dos personagens recorrentes de suas canções – o Zé Doidim.

Enquanto bebia um café fraco na Livraria da Vila, num intervalo entre a gravação do novo Cidadão Instigado e do próximo álbum de Arnaldo Antunes, que produz, Catatau filosofava. “Todo ser humano coloca máscaras. O El Cabrone, por exemplo, é um personagem meu que é caçador do Zé Doidins – mas os dois são faces da mesma personalidade. Todo ser humano é duplo”, avisa com modos tímidos o magrelo barbudo de feições árabes, tererês presos nos cabelos pelos ombros. Um homem-bomba em potencial, claro. E esses personagens, como surgem?

“Eu desenho que só, entendeu. Daí saem essas figuras, como o Pinto de Peitos – que as pessoas não acham estranho ter peitos, e sim ter o bico escuro. No próximo disco vai ter uma música sobre umas ovelhinhas que vão pulando uma cerca, mas não sabem que tem um abismo do outro lado… até que viram uma montanha de ovelhas: elas apodrecem e o mundo passa a ser dos tapurus, aquele verme, saca”.

O surrealismo é uma face natural da realidade para nosso Zé Doidim. Ele morre de medo de fantasma. “Já ouvi muito espírito vir falar comigo. Teve uma época que eu fiquei noiado com essas coisas. Acho que tenho sensibilidade para ouvir essas coisas. Uma vez viajei com DJ Dolores, e eu não queria entrar no nosso hotel porque estava cheio de malassombro. Era Brixton, uma cidade cheia de espírito. Acredito mesmo nessas coisas. Sempre senti muito essas presenças. Escutava amigos me chamando… E amigos vivos! Mas nunca quis saber de trabalhar a mediunidade. Dizia pra mim: ‘deixe pra lá!’…”

E esse lado obsessivo, como é que funciona? “Ah, quando eu surfava, ia à praia às 6h e só saía às 19h. A mesma coisa com fotografia. Andava de skate, resolvi fotografar, comprei uma Pentax, um livrão grosso de fotografia, decorei todas as aberturas possíveis. Outra hora quis ser cozinheiro, só fazia cozinhar. Agora, eu tenho essa coisa de colecionar instrumentos…”, confessa o proprietário de, no momento, uma Hofner semiacústica, uma Giannini craviola, uma Silvertone 1452, uma Electra, uma Finch Flying V… entre diversas outras. Em busca do timbre perfeito, Catatau não economiza com pedais, mesas de som, gravadores de rolo, baixos, teclados: “Eu tô sempre atrás de um cacareco”.

Curiosamente, o bodyboard o conduziu à música. Já era um aficcionado de Carlos Santana, com quem é freqüentemente comparado pela pegada latina e fraseado limpo, mas não tinha acesso a suas obras completas – até que um compadre de ondas, um ruivo galhofeiro, surrupiou uma fita cassete do pai e lhe deu de presente. Assim Catatau ficou amigo de Rodrigo Amarante, ex-Los Hermanos e atual Little Joy, que tem família no Ceará. Também ali na praia do Futuro – “que na época era limpeza, hoje está destruída pelo turismo e pela exploração sexual dos gringos” – conheceu Régis Damasceno, guitarrista do Cidadão e também de Guizado e Lucas Santtana, e Júnior Boca, um dos guitarristas mais assediados da praça (Otto, Instituto, Psychojazz, Barbara Eugenia).

Catatau tentou estudar piano, aos 9 anos de idade, mas desistiu – só aos 13 foi pegar numa guitarra, após ouvir Pink Floyd: “Avisei à minha mãe que seria roqueiro e pedi uma Giannini Les Paul preta”, conta. Durou pouco: o instrumento só seria retomado quando ele tinha 19 anos e já desistia das ondas.

Menudo é bacana
Em São Paulo, no fim dos anos 90, é que Catatau foi ter algumas aulas – com Danny Vincent, seu colega na banda de blues Companhia Blue. Por pouco tempo. “Não tem jeito, sou autodidata mesmo.” Difícil se enquadrar. Apesar de seu toque peculiar, que o identifica à primeira audição, o lado solista de Catatau sublinha um compositor eclético, capaz de no mesmo álbum empilhar referências ao hard rock, música árabe, carimbó paraense, reggae, funk, folk, tecnopop dos anos 80, ponto de umbanda, salsa e música ultraromântica – seu herói maior é Roberto Carlos.

“Em Fortaleza você sempre acha que é alguma coisa mas não é porra nenhuma. Eu queria ser punk, andava com coturno e um cadeado no pescoço, mas tinha um mullet enorme”, recorda. Na época, seu guitarrista favorito era Robert Smith, do Cure, ainda hoje forte influência. Por ter tantos gostos diferentes e ainda assim manter um estilo único, Catatau é fortemente contrário à idéia de “movimento”.

“Não acredito nessa coisa de movimento, cena, nada nada! Não tenho paciência pra essas coisas não. Tenho dez anos de trabalho e vêm me falar que eu sou revelação da nova cena da MPB, como escrevem por aí? Se eu ainda tivesse junto com um monte de cearense pra fazer movimento… uma época quiseram inventar uma ‘invasão cearense’: juntaram eu, Karine Alexandrino, Montage… Nada a ver. Trabalho sozinho e trabalho com todo mundo ao mesmo tempo: Vanessa da Matta, Los Hermanos, Nação Zumbi, Arnaldo Antunes… não sou o Lanny Gordin da minha geração, nunca vou ser. Povo é muito órfão do tropicalismo, mas hoje não tem nada disso não. Existem é turmas!”, vocifera, ufa, de uma vez, o suave terrorista. Por falar em trabalho, é o que não falta. Além do Cidadão e da produção do álbum de Arnaldo, o guitar hero rabisca um disco solo e até um projeto hard rock com Mestre Siba. Tudo sem pressa, tranki, tranki.

E afinal, de onde vem esse apelido Catatau? Não é tão baixinho assim… “Quando eu tinha 14 anos, era o menor da classe, aí saiu essa onda. Eu tinha uma voz fanha, era difícil conversar. Por isso acho que sempre tenho um olhar para o excluído, o diferente, o que está deslocado…”

Já se sentiu vítima de preconceito? “Todo mundo é preconceituoso. Eu mesmo: tenho preconceito com pessoas que são lindas demais. Por isso é que sempre tou me reciclando. Ouço um troço e penso: ‘Isso aqui é mó paia. Mas… será que é paia mesmo?’ Aí ouço de novo. Já quebrei minha cara várias vezes. Principalmente coisas românticas dos anos 80, George Michael… esse é massa! Aquela ‘By my side’ do Menudo, eu até hoje acho demais! Tinha coisa que eu gostava e hoje acho horrível, tipo aqueles guitarristas virtuoses… Acho que minha virtude é perceber as combinações de um estilo com outro. Gosto de pegar um baixo de reggae e juntar com uma levada de carimbó, por exemplo… Não pode ter medo de misturar as coisas”, ensina o sábio guitarrista, com olhar de quem já viu muita coisa. Preconceito, só com malassombro.

sábado, 2 de outubro de 2010

Ensaio para a revista Trip

Inspirada em uma capa da clássica revista em 1966, Trip aposta em nove novos artistas essenciais da música brasileira e constata que a cena atual é quase uma orgia: todo mundo toca com todo mundo e o prazer é geral

Esqueça as paradas de sucesso, os prêmios que louvam os medalhões de sempre, os ganhadores de Disco de Ouro e aquele papinho “ah, mas a cena de hoje não tem mais um Chico, um Caetano.”. Conversa. O riquíssimo panorama musical contemporâneo não tem nada a ver com o que rolou nos anos 60. São outros públicos e propostas, outro jeito de a música chegar ao ouvinte, os grupos não são hermeticamente fechados e se abrem para novas combinações – e não há um inimigo comum, fardado e censor, a combater.

Mas existe um adversário invisível: a multiplicação e a dispersão de sons e imagens. Qualquer músico pode criar uma página na rede, encontrar um buraco para tocar, bancar um CD bacana por R$ 3 mil. Talvez por isso a Trip tenha tido tanto trabalho para apostar nos nove carros-chefe da nova geleia geral brasileira – inspirada em uma clássica reportagem da revista Realidade, que em 1966 cravou o mesmo número de jovens talentos musicais em sua capa. Chico Buarque tinha apenas 23 anos e era conhecido pelo hit “A banda”; Caetano Veloso e Gilberto Gil, ambos com 24, ainda não haviam dado a cara nos festivais da canção.

Se a Realidade acertou quase tudo, Trip, através de um colegiado e de muitas horas de discussão, arrisca estes Nove Novos com firmeza. Afinal, embora distantes do público de massa, eles são figurinhas carimbadas para quem acompanha movimentações de palco e MySpace. Todos são compositores; alguns ainda burilam o segundo álbum, outros são mais rodados – e, dos nove, só Thalma de Freitas tocou com todos.

Na Realidade de 66, em sentido horário, a partir do homem de terno: Milton Banana (Milton Banana Trio), Jair Rodrigues, Nara Leão, Paulinho da Viola, Toquinho, Magro (MPB-4), Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil

“Nenhum homem é uma ilha, todo de si mesmo; cada homem é um pedaço do continente, uma parte da terra principal”, escreveu em 1624 o poeta inglês John Donne. O verso ilumina nossa busca pelos homens arquipélago dos anos 00, no lugar dos músicos estelares dos anos 60. Hoje, quem se isolar dos aspectos menos artísticos de seu trabalho some. Não funciona ficar no canto criando, à sombra de uma gravadora ou de um produtor. O artista precisa se mover para todos os lados, às vezes se ocupando de tarefas nada musicais – pensar a arte do CD ou do site, cuidar da produção de um show ou da agenda de um evento.

Agora que ficou combinado que o CD é suporte para o trabalho ao vivo, antes meio que fim, ficou mais liberado todo mundo tocar com todo mundo. Seja solidário ou morra: a cena musical deriva concretamente da dinâmica das redes, que se tornaram o novo paradigma da comunicação (online e interativa, da internet e dos videogames), substituindo o de difusão (próximo dos festivais de TV e dos programas de rádio). Faz sentido a aproximação de artistas e bandas de gêneros musicais distantes. Isso não tem nada a ver com movimento: a liga é mais forma que conteúdo, mais modo de trabalho que programa artístico.

O esquema “banda trabalha seu disco com a gravadora e sai em turnê” não funciona mais. Embora os álbuns sejam fundamentais à coerência de cada projeto, grupo ou artista solo, há tanta coisa rolando entre cada lançamento que se poderia dizer: o mais bacana é a obra em progresso. Entre álbum e outro surgem parcerias inusitadas, projetos paralelos que ganham força e roubam os holofotes. Assim como não existem gêneros definidos, não há polos centrais que aglutinam coadjuvantes ao seu redor. Como em um filme do Quentin Tarantino ou em um livro do Roberto Bolaño, um personagem secundário em uma cena pode ser o principal narrador na seguinte e vice-versa.

O panorama musical dos anos 00 é fragmentário, interdependente, contextual. Daniel Ganjaman, do Instituto, reflete: “Não existe entre nós essa ideia de movimento; são diversas movimentações acontecendo ao mesmo tempo, para todos os lados, entre as mesmas pessoas e outras novas”. Rômulo Fróes teoriza: “Agora é que está finalmente acontecendo a tropicália. A ideia de que todos iam criar tudo, apresentada pelos tropicalistas, só se realiza plenamente na nossa era”. Seja bem-vindo.

Catatau, Céu e Thalma de Freitas

Cidadão Instigado

Por Bruno Natal

No dicionário do cearense Fernando Catatau, líder do Cidadão Instigado, o verbete do termo que ele criou para batizar o método de composição do segundo disco da banda, “Cidadão Instigado e método túfo de experiências” (Slag Records/Selo Instituto) seria esse:

Túfo subst./adj. 1. Fazer algo sem pensar demais. 2. Duma vez. 3. Experiências vomitadas.

O termo serve também para definir a mistura de estilos quase inconseqüente feita pela banda. Psicodelia, teatro, rock, brega, música eletrônica, cinema, ritmos nordestinos... A lista é longa. E, apesar de parecer improvável, funciona.

Nome em ascensão, Catatau tem diversas participações e parcerias com nomes conhecidos no currículo. Tocou guitarra nos últimos discos da Nação Zumbi (“Futura”) e Los Hermanos (“4”), acompanhou o Los Sebosos Postizos (projeto paralelo de Jorge Du Peixe, Lucio Maia e Dengue, só de versões de clássico de Jorge Ben), DJ Dolores, Eddie, Otto, entre outros.

Além disso, Catatau compôs, produziu e arranjou “Cidadão Instigado e o método túfo de experiências”, um dos melhores lançamentos de 2005. A bolacha capricha nas músicas climáticas (várias delas passando dos cinco minutos, a bela “O tempo” passa dos sete) e nos temas inusitados como “O pinto de peitos”, “O pobre dos dentes de ouro “ e ”Os urubus só pensam em te comer”.

Apesar das evidências, não se trata de uma banda de um homem só. Catatau faz questão de ressaltar a participação dos companheiros de banda Regis Damasceno (guitarra, violão e voz), Rian Batista (baixo), Clayton Martim (bateria acústica e eletrônica) e Marcelo Jeneci (teclado) no resultado final da sonoridade final.

Depois de muitos shows pelo Brasil, a banda finalmente chega ao Rio para mostrar aos cariocas o tal método túfo. Difícil saber exatamente o que esperar de uma banda tão criativa quanto o Cidadão Instigado ao vivo. Certamente é coisa fina.

RESENHA DE DISCO: CIDADÃO INSTIGADO (CE) – E O MÉTODO TUFO DE EXPERIÊNCIAS

Por Luciano Mattos (El Cabong)

Existem determinados sujeitos que são inquietos e instigantes em sua essência. Entre tantas alternativas de vida, alguns deles resolvem mergulhar no mundo da música e costumam presentear os ouvintes com boas esquisitices. O cearense Fernando Catatau é um desses caras. Desde que lançou os primeiros trabalhos de sua banda Cidadão Instigado ele corrompe as regrinhas da música brasileira. Na verdade nem se importa com elas. Depois de anos tocando alcançou o status de um dos músicos mais importantes e criativos dessa nossa música, pelo menos a do universo que mais importa.

Em 2005, foi considerado pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo como o melhor compositor brasileiro do ano. Responsável pela composição, produção, arranjos, voz e diversos instrumentos, Catatau acaba sendo a cara da banda, que criou em 1994 ainda em Fortaleza. Catatau já tocou ou toca com gente como Otto, Vanessa da Mata, Zeca Baleiro, Nação Zumbi, entre outros, mas é no seu próprio trabalho que mostra sua enorme capacidade de criação.

Com o Cidadão Instigado (formado por Régis Damasceno, Rian Batista, Clayton Martin e convidados especiais, como Daniel Ganjaman, Maurício Takara e Izaar, entre outros), solta esse petardo que vem tirando do prumo quem já estava se contentando com as repetições, mesmo as mais recentes. “Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências” altera os sentidos porque é simples. Desnorteia por utilizar elementos de nosso cotidiano, que mal utilizados costumam ser rejeitados, desprezados ou esquecidos. Elementos que aparecem nas letras, melodias, timbres, instrumentos, forma de cantar e que se juntam a elementos mais modernos, como sintetizadores, bateria eletrônica e efeitos. Ao contrário do quem vem sendo alardeado, não é apenas um disco de música brega no novo milênio.

O trabalho da Cidadão Instigado não é tão facilmente encaixável em um tipo de rótulo. Como no primeiro disco, Catatau e a banda subvertem e jogam para o alto qualquer tipo de tentativa de formatar sua música em alguma prateleira. Passeiam por sons psicodélicos, batidas eletrônicas, sonoridades setentistas, ritmos nordestinos e abrem a torneira de um universo particular para experimentar e contar histórias. Há música brega na música que abre o disco, a belíssima “Te Encontra Logo” e na última “O Tempo”. Um brega moderno que traz uma conhecida sonoridade das mesas de bares.

Dor de cotovelo embalada por um ritmo baladeiro com teclados, trechos falados, corinho e letras que falam de romances melodramáticos. “Estou morrendo e tenho medo de só pensar em você/ Te encontro logo a distância/ Antes dela te dizer que já é tarde demais”, na primeira, ou “mas o tempo é um amigo precioso/ que faz questão de jogar fora/ aquela mágoa vencida que ficou/ sofro por não ter pensado em te dar um desconto/ pus o rancor pra cuidar de tudo/ e vi que a vida mudou um segundo/ s vezes choro/ pois sei que não posso deixar que o passado invada meu mundo/ lembrei do perdão e vi nós dois construindo um futuro.”

Preciosidade da última canção do disco. Porém, não é só isso. Como definir “Os Urubus só Pensam em te Comer”, uma excêntrica música retirada da trilha sonora de um curta homônimo. Experimentalismo em cima de uma batida simples, teclados tortos e uma letra metafórica sobre vacas e urubus. Em “O Pobre dos Dentes de Ouro” uma levada mais latina que logo se transforma num samba de terreiro e muda completamente virando uma experimentação sonora com guitarras.

Tudo para contar a história de um sujeito pobre que sonha com dentes de ouro para ficar lindo. A viagem em que mostra personagens comuns, mas que parecem invisíveis prossegue em “Silêncio na Multidão”. E ai ele mostra a estranheza de um lugar como São Paulo, que acolhe e assusta. A realidade da cidade grande, cruel e solitária. “Eu vejo as pessoas que passam por mim/ que falam, que ralam, que gritam/ em harmonia e solidão/ dói no coração ver meu povo silencioso”. Como se quisesse acordar quem o cerca do conformismo e passividade reinante. E segue ainda com o rock experimental alucinado “Calma!”, a estranha “O Pinto de Peitos”, o meio reggae-rock enviesado “Apenas um Incômodo”, que dá um recado nada conformado de um discriminado (nordestino em São Paulo? Cantor desafinado?), a bela “Chora, Malê” e a esquizofrênica a la Zumbi do Mato “Noite Daquelas”.

Catatau e sua trupe passeiam por sons experimentais e ousados. Encontram uma forma inteligente de falar de personagens comuns, problemas sociais, preconceito e de um universo simples, até cotidiano, mas que poucas vezes foi apresentado ao mesmo tempo de forma tão criativa e original. Criam sonoridades interessantes e desconcertantes, que aliadas s letras ousadas e criativas resultam nessa pequena obra prima.

Um grande instrumentista


Fernando Catatau é um sujeito diferente. Com um olhar lançado à tristeza e ao que a vida oferece de sublime, ele abraçou a guitarra como paixão e também sustento. É com ela que ele acompanha pelo Brasil afora figuras como Otto e Vanessa da Mata. Ele segue criando e experimentando seus acordes dissonantes junto a criações inovadoras da música brasileira.

Mesmo estando na estrada quase que diariamente, Catatau como é conhecido nos palcos ainda tem fôlego para criar composições para o seu trabalho chamado “Cidadão Instigado”.

Com dois discos lançados “O ciclo da decadência" e o mais recente"Método tufo de experiências", Catatau cria juntamente com os músicos Regis Damasceno, Rian Batista, Clayton Martim e sempre traz um convidado diferente que acrescenta sua experiência e viagens.

Por falar em viagens, parece ser essa mesma a intenção do último trabalho do Cidadão. Com canções como “Te encontra logo...”, “Os urubus só pensam em te comer”, “O pobre dos dentes de ouro” e a brincadeira divertida de “O pinto de peitos”, o trabalho é delicioso e incansável. As criações da guitarra junto à voz peculiar de Catatau são o diferencial das canções.

Semelhante ao brega e sem amarras de rótulos enviesados, o Cidadão faz uma viagem a diferentes ritmos e traz o nordeste despregado do mapa geográfico. Nascido no Ceará, Catatau carrega a força do nordeste no sangue e nas composições. Apesar disso, sua verdadeira paixão musical é Roberto Carlos e como ele mesmo declara aos quatro cantos, sua felicidade na música é ouvir música triste. “Música feliz demais me dá agonia, me deixa triste”.

Não é o que parece ao percorrer o último trabalho do cidadão. Com humor sarcástico e diferentes ‘tirações’ de onda , como a canção “O pinto dos peitos”, que fala do pio escuro de um pinto com bico preto, o Cidadão traz um trabalho honesto e divertido por sinal. Amante também da fase romântica da dedada de 70 e fã de Fernando Mentes, Márcio Greyck e Bee Gees, Catatau também sofre influência direta de suas próprias criações quando acompanha músicos brasileiros pelo mundo afora, mostrando claramente toques do brega, do rock progressivo e músicas com climas variados, ou seja, aberto às invenções.

Apaixonado por áudio, equipamentos antigos e pelos instrumentos em geral, Catatau escolheu a guitarra ao ouvir pela primeira vez o guitarrista Santana. Caminhando por discos de Pink Floyd, Jimmy Hendrix e Iron Maiden, ele criou se gosto musical nessa salada que mistura temperos de várias partes do mundo. Esse tempero pode ser saboreado nos discos do Cidadão. Delicioso e com toques de uma voz peculiar, pouco ouvida na música brasileira, os discos do Cidadão trazem a sensação de que Catatau não tem medo de ousar e assim cria, chora, sente e se diverte, mexendo e puxando o tapete do mercado independente da música brasileira.

Pode-se dizer que o Cidadão Instigado é um grupo especial nesse seleiro da música hoje, quando consegue desamarrar do mercado e lançar-se às criações pura e simplesmente.

Ele joga em todas

Fernando Catatau, líder do Cidadão Instigado, se destaca como um dos mais atuantes nomes da nova geração de independentes. Ele toca, canta, compõe para cinema e produz.


Há nove anos radicado em São Paulo, o vocalista e guitarrista cearense Fernando Catatau, de 38, sabe que é essencial a migração para que as coisas realmente aconteçam. “Para trabalhar com música no Brasil, tem que ser em São Paulo, mesmo sendo uma cidade saturada de gente. Em outro cantos, parece que a gente está sempre esperando. Para mim, é mais fácil tocar no Nordeste estando aqui do que vivendo lá”, afirma o líder do grupo Cidadão Instigado. E trabalho, vale dizer, é coisa que não está faltando a ele.

Além de liderar uma das formações mais cultuadas do meio independente, Catatau é nome recorrente na ficha técnica de álbuns de artistas igualmente bem falados. Produziu Iê iê iê, novo trabalho de Arnaldo Antunes, participou ainda dos CDs mais recentes de Céu (Vagarosa) e Otto (Certa manhã acordei de sonhos intranquilos), isso só para falar de discos lançados em 2009. No ano que passou ele ainda lançou o terceiro trabalho do Cidadão, Uhuuu!, trabalho solar (o título é um grito comum entre os surfistas) que fez parte da maior parte da lista dos melhores da temporada.

Ouvidos mais atentos não têm dificuldade em reconhecer a colaboração de Catatau. São guitarras psicodélicas, cheias de textura e emoção, que criaram, dessa maneira, uma marca bastante singular. “Várias coisas influenciaram na minha maneira de tocar. Talvez a principal delas tenha sido o fato de eu assumir minhas dificuldades e erros. Não consigo ser muito rápido, então comecei a pensar como poderia me dar uma rasteira e fazer isso funcionar.” Ele também toca com a mão (não usa palheta) e, como qualquer bom guitarrista, está sempre atrás do instrumento perfeito. Sua coleção já soma 15 guitarras, as preferidas uma Hofner e uma Giannini Craviola.

Mesmo que tenha saído de Fortaleza em busca de um lugar na música em São Paulo, o Nordeste sempre esteve (e continua), ligado a Catatau. Foi o pernambucano Otto, outro migrante, o primeiro artista com quem gravou. Era o ano de 2000, e foi convidado para gravar com ele. Depois vieram outros com quem tocou, como Vanessa da Mata, Zeca Baleiro (integrou a banda dos dois cantores), mais Los Hermanos e Nação Zumbi. Hoje, além do Cidadão, toca nas bandas de Otto e no coletivo Instituto. “Minha prioridade é o Cidadão Instigado, mas, como trabalho com pessoas também do meio independente, consigo conciliar.”

Além de Uhuuu!, o grupo lançou O ciclo da de.cadência (2002) e Cidadão Instigado e o método Túfo de experiências (2005). Cada disco traz uma característica própria. Enquanto o primeiro tinha sonoridade mais intensa, quase épica, o segundo bebeu no romantismo. Catatau assina letra, música e produção, tanto que sempre se falou do Cidadão como sendo somente ele. “Isso aconteceu porque passei um tempo só compondo, depois montei diferentes formações. E, querendo ou não, o trabalho é baseado na minha pessoa. Mas com o tempo o Cidadão acabou se transformando numa banda e todos os músicos a assumiram como tal. Não existe essa de funcionário, do cara que vai lá e simplesmente toca. Hoje, todo mundo se importa.”

Esse “todo mundo” responde por Régis Damasceno (guitarra), Rian Batista (baixo), Clayton Martin (bateria e programações), Dustan Gallas (teclado) e Kalil Alaia (técnico de som e efeitos). Todos, a exceção de Clayton, que é paulistano, foram importados de Fortaleza. “A gente toca junto desde adolescente e todos não estão somente em uma banda. Eles também tocam com outras pessoas.”

MÚSICA VISUAL Outro lado do trabalho de Catatau é com o cinema, na confecção de trilha sonora. A inserção não foi difícil, já que sua música é bastante visual. “Quando comecei a compor, a ideia era fazer trilha para minhas letras. Depois, isso acabou se transformando e hoje em dia gosto de canções simples.” Esse lado cinematográfico, de acordo com ele, veio muito por influência do rock progressivo.

Na base da música do rock psicodélico do Cidadão Instigado está o Pink Floyd. Outros nomes que fazem parte da cartilha dele são Jimi Hendrix, Robert Smith (The Cure), Carlos Santana, Raul Seixas, Bee Gees e Roberto Carlos. O nome dele está na trilha de longas como Amarelo manga e Baixio das bestas (Cláudio Assis), Sólo Dios sabe (do mexicano Carlos Bolado) e vários curtas. Um deles, Os urubus só pensam em te comer, de Vanessa Teixeira, acabou dando nome a uma das canções de Catatau, que atualmente prepara a trilha do longa O transeunte, de Eryk Rocha.

O trabalho com Arnaldo Antunes – que acabou participando de Uhuuu!, assim como Edgard Scandurra e Karina Buhr, do Comadre Fulozinha –, que deu uma visibilidade maior para ele, foi, segundo Catatau, muito gratificante. “Tive liberdade para fazer o que quis. E foi ótimo, porque o Arnaldo é um ídolo. Tanto que até parei de escutar Titãs na época em que ele saiu. Com isso, acabou sendo fácil, pois fui com o coração, e não apenas como um funcionário.” Mesmo com uma produção tão prolífica, Catatau diz que a música não acontece para ele de maneira tão simples. “É sempre dolorido, tanto que cada música é uma agonia”, conclui ele.

(Mariana Peixoto - EM Cultura, 29/01/2010 10:31)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Entrevista: Fernando Catatau (Cidadão Instigado)

(http://penduradoparasecar.blogspot.com/ por: Law / terça-feira, 22 de abril de 2008)

Entrevista:

PPS: Primeiramente uma pergunta que deverá decidir se essa entrevista poderá ser postada no Pendurado Para Secar ou não: O que você acha do compartilhamento "ilegal" de músicas, filmes, livros...? Você acha que o "mercado cultural" tem que rever suas idéias ou é o compartilhamento "ilegal" que tem que ter um fim?


Catatau: Eu acho que o mundo caminha pra que todas as informações sejam compartilhadas é um caminho sem volta a custa do barateamento nós temos acesso a várias coisas, quem imaginaria que você escrevendo um nome e dando um clic num mouse você conseguiria ver tantas coisas como se vê hoje no You Tube? Lógico que no fim das contas tudo vai se perdendo, a qualidade não importa mais, e isso é algoaterrorizante, pois as pessoas vão perdendo o referencial do que é bom ou ruim, mas a informação ta ali. Na hora que se quer no final das contas é o que temos pra viver hoje.


PPS: Como é que você vê a atual cena (musical) independente do Ceará?


Catatau: Tem bastantes bandas novas, mas não é muito diferentedo que era nos anos 80 ou 90. O diferencial de hoje éque as trocas de informações ajudam, mas você chega emfortaleza e é a mesma dificuldade pra tocar, nesses últimos tempos alguns jornalistas meperguntaram sobre a cena cearense...Eu conheço algumas bandas, umas que gosto e outras quenão, mas o que eu percebo é que não existe ummovimento ou algo parecidocada um ta no seu mundo se dedicando e correndo atráse eu vejo isso como um ponto muito positivonão que eu seja contra movimentosmas as pessoas se fortalecendo separadamente podem setransformar em algo concreto.


PPS: Recentemente o Cidadão abriu um show do Tom Zé. O que você acha do Tom Zé no quesito musical, o experimentalismo dele, você considera ele um revolucionário? e por que você acha que ele é muito mais reconhecido no exterior? Lembrando que aqui no Brasil precisou um músico gringo famoso (que eu não me lembro quem é) dizer que o trabalho dele era muito bom para elecomeçar a ser valorizado.


Catatau: Eu fico até sem saber o que falar sobre o Tom Zé, é difícil falar sobre alguém que é muito bom e verdadeiro no que faz, acho ele muito foda. No Brasil é difícil as pessoas terem acesso a qualquer tipo de informação que seja um pouco mais “inteligente”, os responsáveis pelo país querem que o povo seja burro e apático, imagino que este seja um dos maiores fatores de todo tipo de arte não ser para o povo: é o medo das pessoas se rebelarem contra esse sistema fulero que a gente vive.

PPS: Qual o caminho para a música brasileira sair do marasmo que se encontra? Se é que você acha que ela se encontra num marasmo.

Catatau: Acho que tem muita gente fazendo coisas legais, muitas mais fazendo coisas horríveisacho que e necessário ser verdadeiro no que se faz, fazer musica sem pensar em mercadoo mercado já ta na nossa frente.

PPS: Essa próxima vai inteira da forma como foi elaborada, por um membro da comunidade da revista O Dilúvio, pois foi algo que aconteceu "com ele" então preferi nem mexer no texto, por favor comente:

"É interessante citar aquela *declaração do Lúcio Maia* que postei aqui e saber o que ele acha do download dE seus cd´s . Lembro que no início da comu do Cidadão Instigado ele detonou o fato da gente estar liberando os cd´s em mp3, cheguei até a compará-lo ao Lula que queria expulsar o jornalista americano que disse sobre o seu gosto pelo álcool. Lembro que os tópicos foram apagados e depois da reação da galera, ele acabou deixando ficar.Pergunta: Ele, tal qual o molusco, prefere ser essa metamorfose ambulante ?P.S.: Adoro o som do Catatau."

*Não achei a declaração "original" dele, mas ele reclamava do fato do disco da Nação Zumbi ter vazado na internet, e dizia que ai ninguém comprava e com isso a gravadora acabava e a banda acabava. Era mais ou menos isso. Agora se me permite, deixe-me fazer um parênteses com o fato de que o disco do Maquinado (projeto do próprio Lúcio Maia) foi para na internet pouco após ser lançado e só num link postado no blog Som Barato
, onde também foi postado o disco da Nação Zumbi, teve um grande número de downloads e ele (Lúcio Maia) em momento nenhum reclamou do disco estar na internet.

Catatau: Cabra, me desculpe, mas eu não entendi muito a pergunta eu ou o Lucio que detonamos o fato "deles" estarem botando nossas mp3 pra baixar?eu sempre fui a favor de liberar as musicas em mp3, então não deve ter sido eu, lembro que no começo da comunidade do Cidadão teve algumas pessoas que começaram a brigar dentro de umtópico e eu apaguei mas apaguei pelo simples fato de não concordar com discussões a toa eu sou a favor de download livre, se eu faço isso, porque vou criticar outros que fazem? lógico que se alguém comprar o meu cd e o dinheiro for pro meu bolso eu prefiro pois vivo disso e preciso pagar minhas contas, mas vai da escolha de cada um.
Quanto ao Lucio, tanto ele como o resto da galera devem saber o que é melhor pra Nação Zumbi, eu fui um dos que baixou o disco novo na internet e fico feliz toda vez que consigo descobrir alguma coisa nova e legal, pra mim só me incomoda a qualidade, tanto que nem escuto muito som em mp3 pois me soa agressivo, mas isso sou eu.


PPS: O que esta por vir de trabalho novo por ai? disco novo do Cidadão? o que você pode adiantar?

Catatau: Já estamos com o disco todo pronto em termos de composições e arranjos, devemos começar a gravar em junho se tudo der certo, estamos tocando algumas novas nos shows acho que o melhor é dar uma assistida no show pra ter uma noção.

PPS: Como ótimo guitarrista, tem alguém novo com quem você tocou que não esperava e tenha gostado? tem alguém com quem você não tenha tocado ainda, mas gostaria de tocar?

Catatau: Obrigado pelo ótimo guitarrista. Acho que eu sou uma pessoa satisfeita em relação aos trabalhos que faço, só toco com quem eu gosto e as pessoas que eu gosto me chamam pra tocar. Gostaria de fazer algo com o Scandurra que acabei de conhecer, com o Manu Chao que até já tiramos um som, mas muito informal, na real, as pessoas que admiro eu prefiro ver fazendo do que tocar junto.

PPS: O que você acha da "panela" que se formou em São Paulo (Instituto, Mamelo Sound System, Nação Zumbi, Céu, etc). Como eles compartilham os seus sons?

Catatau: O que posso falar? Nessa panela eu também como, são todos meus amigos, que eu trampo junto e que sãopessoas bem talentosas e até acredito que não exista uma panela proposital, mas amigos que se identificam são assim sempre querem estar um perto do outro, o massa é que o povo ta pelo mundo e não se fecha.

PPS: O que você anda ouvindo ultimamente (novo/velho, nacional/internacional) e o que você indica?

Catatau: Escuto muita coisa:
Raul Seixas, Richie Ravens, Santana, The Cure, Roberto Carlos, Alcione, Black Sabath, Frumpy, Rod Stewart, Ali Farka Toure, Bee Gees, John Frusciante, Legião Urbana...Eu indicaria tudo isso ai e um pouco mais.

PPS: Em algumas das músicas do Cidadão Instigado eu noto como tema o preconceito (O Pobre Dos Dentes De Ouro / O Pinto De Peitos / O Verdadeiro Conceito De Um Preconceito), qual a sua opinião sobre o preconceito? Como deve ser combatido, penalizado?

Catatau: Minha opinião tá nas letras, é exatamente o que sinto, qualquer tipo de preconceito é ao meu ver repulsivo, e ninguém esta livre de sentir ele até contra si mesmo, a policia tem que ser interna.

PPS: Você acha que o Brasil é um país desprovido de preconceitos, como muitos dizem ser, ou concorda comigo que pelo contrario, existe muito preconceito, e no dia-a-dia fora da mídia ele não faz questão de se esconder?

Catatau: O preconceito é um sujeito cego, você as vezes sente sem saber, todo mundo de alguma maneira sente ele em si. O desapego total seria a única maneira dele não existir, mas acho impossível, pois somos seres humanos cheios de defeitos e certezas.

PPS: Por último um pergunta "idiota":
Por que CATATAU?


CATATAU: Foi no colégio quando eu tinha 14 anos, era o menor da sala e sempre tive essa voz fanha, enfim...
valeu e desculpa a demora
abs!

(foto por: Alisson Louback)

Cidadão Instigado encerra Festival Alto Verão


(por Carlos Messias | 25/01/2010 - http://billboard.br.com)

Depois de 9 dias e quatro (ótimas) atrações, o Cidadão Instigado fechou o festival Alto Verão, que levou Macaco Bong, Hurtmold, Móveis Coloniais de Acaju e a banda de Fernando Catatau ao Auditório Ibirapuera. Realmente funcionou a proposta de levar bandas do circuito alternativo com sonoridade tão consistente a um espaço com acústica e sistema de som de tamanha qualidade. O rock brega psicodélico do Cidadão nunca soou tão bem.
Com os teclados e sintetizadores de Dustan Gallas, as guitarras de Catatau e Régis Damasceno (com direito a inúmeros efeitos e distorções, como um que modula o instrumento ao som de uma cítara), a bateria tribal de Clayton Martin e o baixo por vezes (propositalmente) dissonante de Rian Batista, o som ficou extremamente encorpado, reverberante, cheio de camadas...
A banda fez a alegria dos fotógrafos, não por render fotos incríveis, mas simplesmente por ficar parada, sem sair do lugar. Sem grandes interações com o público, o Cidadão na verdade se mostrou à vontade com o repertório novo, tocando o último disco – Uhuuu! – quase na íntegra, com direito a improvisos e mudanças nos arranjos que ressaltaram o excelente entrosamento entre os músicos. Os trabalhos anteriores também foram relembrados.
Eles falaram com a plateia apenas em dois momentos, primeiro com um discurso nonsense de Rian Batista, e depois nos agradecimentos de Catatau – para o qual tudo foi “massa” – antes do bis. Aquele foi o primeiro show do Cidadão com iluminador, e todos os nuances do repertório do grupo foram muito bem sublinhados pelo recurso. As cores variavam– roxo, verde, vermelho... –, destacando uma “colcha de retalhos” psicodélica que decorava ao palco.
Eles voltaram para o bis com a lisérgica “Os Urubus Só Pensam Em Te Comer”, do primeiro álbum – Cidadão Instigado E O Método Túfo De Experiências (2005). Verdadeiro Jimi Hendrix do agreste, Catatau nem esperou os aplausos de pé do público antes de deixar o palco.
Formalidades não são muito com ele, mas sua banda soube se beneficiar com o aparato do imponente espaço, rendendo a melhor apresentação do festival. Dia 4 a banda se apresenta no Studio SP, em São Paulo, sem toda essa infra. Mas um show do Cidadão Instigado é um show do Cidadão Instigado...

(
em São Paulo- 24 de janeiro de 2010)

Foto de Amanda Louzada 2

Foto de Amanda Louzada

BIFF BANG POW - Uma Rapidinha Com Fernando Catatau


(por: Patrícia Froes e Leonardo Bomfim)

Qual foi o primeiro disco que você comprou?

O primeiro disco que eu comprei foi o Paranoid do Black Sabbath. Lembro que eu queria ser rockeiro e fui pela capa. Foi uma ótima escolha pra minha vida.

E o último?

Eu nem compro muitos discos. Pelo que eu me lembre foi um greatest hits do Neil Young.

Qual o seu disco favorito para a balada de sexta-feira à noite?

Qualquer disco de reggae, embora eu não diferencie muito os dias da minha vida e também não escute muita música (só quando eu realmente estou a fim), mas raggae é o som que eu não reclamo nunca.

E o favorito para a manhã de domingo?

Nenhum.

Qual o seu disco favorito do Rei Roberto Carlos?

Eu gosto de muitas coisas do Roberto Carlos, principalmente essa fase de 67 à 82, que é bem ampla. Posso citar músicas como "O Divã", "O Moço Velho", "Cama e Mesa"... Olha que são de discos diferentes. Prefiro fazer um "the best..." dele.

Qual a melhor trilha sonora para um engarrafamento em São Paulo?

Ouvir música clássica é legal... E raggae também.

Com quem você gravaria um disco em dupla?

Dupla? Tipo dueto? Steve Vai!

Qual artista você gosta mais não deveria?

Eu gosto de um monte de coisas, e sempre acho que deveria gostar, por mais que as pessoas falem que não. Pra mim a música tem que emocionar. Gosto de músicas do Hendrix, mas gosto de uma do Menudo, também e é sempre assim. Gosto agora, desgosto depois, volto a ter interesse... Só faz sentido se for assim, na real eu vivo brigando com a música, por isso eu não enjôo totalmente. Quando começa a ficar muito ruim, fica bom de novo.

Qual o seu disco top of the tops de todos os tempos?

The Cure, Boys Don't Cry. Por enquanto.

(fevereiro/março de 2006)