domingo, 12 de setembro de 2010

Entrevista: Regis Damasceno, o Mr. Spaceman


O cearense Regis Damasceno, 37, é daquelas figuras quase onipresentes na cena alternativa brasileira. Se você circula pelos shows das melhores bandas novas do país, certamente já viu o músico no palco incorporando Robert Fripp.

Um dos guitarristas mais prestigiados desta geração, ele é conhecido como integrante do Cidadão Instigado, mas também acompanha Guizado, MoMo e Lucas Santtana, só para citar alguns.

Já tocou com Vanessa da Matta, Tom Zé, Arnaldo Antunes, Otto, Beto Guedes, Jupiter Maçã, dentre outros, e sua primeira banda, Velouria, existiu de 1990 a 1997 e fez parte de uma safra de guitar-bands de Fortaleza pioneiras e bastante talentosas.

Há exatos 10 anos, Regis lançou-se em carreira solo sob a alcunha de Mr. Spaceman, que só estreou em disco com o EP I Beg Your Pardon (midsummer madness), de 2001. Fez alguns poucos shows até 2008, quando finalmente soltou o primeiro álbum, auto-intitulado Mr. Spaceman; multi-instrumentista, toca quase tudo, à exceção da bateria, revezada entre os parceiros Daniel Pessoa e Marcus Ribeiro.

Apesar do currículo extenso, com seu projeto solo Regis é o nome mais jovem enquadrado na possível safra folk brasileira. Talvez por isso é um dos artistas que mais rebatem essa classificação. “Faço música pop”, afirma.

O que podemos considerar música pop hoje em dia é assunto para outra entrevista. Por enquanto, fique com a aula a seguir.

Agência Alavanca – A ideia do festival é apresentar bandas e artistas que têm dado nova cara à música folk. Na sua opinião, como esse dito “novo folk” se diferencia do folk das décadas passadas?
Regis Damasceno - Eu não penso em termos do folk das décadas passadas e de agora… Por folk eu entendo a música folclórica, de raiz interiorana, onde um cantor e seu violão, tal como um menestrel, passa seus sentimentos, inquietações, de cunho social ou não. Isso que chamam de folk no Brasil é apenas um simulacro. É outra coisa. É apenas uma releitura, como sempre acontece, do que está rolando lá fora, ou seja: uma nova safra de cantores com violões… Nada especial. Música folk brasileira pra mim é o sujeito que toca viola caipira, Almir Sater, Paulo Freire. O que chamam folk agora é a velha e boa música pop, com essa queda pra canção, que muito em breve voltará ao seu lugar, que sempre existiu.

O que pesa mais no seu folk, as influências nacionais ou estrangeiras? Se fôssemos colocar o disco “Mr. Spaceman” para dividir uma prateleira com alguma banda ou artista, qual seria e por quê?
Partindo do princípio de que não faço música folk e sim música pop e que canto minhas canções em língua inglesa, fica evidente que a maior parte de minhas influências vem do estrangeiro. Beatles, Smiths, Nick Drake, Donovan, The Divine Comedy, Pink Floyd…. colocaria meu disco nessa prateleira.

Exceto pelo MoMo, com quem você fez alguns shows, conhece o repertório das outras bandas que participam do festival (Supercordas e Vanguart)? Se pudesse incluir outras bandas na escalação, nacionais ou gringas, quais escolheria e por quê?
Conheço o Supercordas, tocamos juntos no Rio há alguns anos. Gosto deles, mas sempre acho que são melhores no disco que ao vivo. Não existia um grupo como eles por aqui, trazendo algumas referências pouco usuais e cantando em português. Gosto muito do trabalho solo do Bonifrate também. O Vanguart não conheço bem. Nunca vi show deles, mas sei que são bem recebidos. O que ouvi e gostei eram umas gravações em inglês, mas agora eles cantam em português e sempre me soa estranha a métrica, a divisão.

Bob Dylan eletrificou o folk americano, o transformando em música “de dedo em riste”, um retrato ácido da sociedade da época. Podemos apontar, em qualquer período, um folk genuinamente brasileiro, com características próprias?
O mais perto que chegamos em termos de contestação foi o Geraldo Vandré, mas que foi esquecido… Não somos bons em fazer canções de protesto, pelo menos com violão. O Tony da Gatorra consegue fazer do jeito dele. Mas pode-se notar que não é o nosso forte esse tipo de consciência político-social através da música.

Acredita que o Brasil atualmente sustente mesmo uma cena folk? Por quê?
Não, isso vai passar muito rápido. O que dura é música pop, sempre se transformando.

Você acompanha uma lista grande de bandas pelo Brasil. O trabalho com outros artistas interfere de alguma forma nas suas composições?
Eu toco basicamente com pessoas/bandas com as quais tenho afinidade musical. Eu não consigo me perceber influenciado por nenhum deles. Sempre coloco minha musicalidade a serviço da canção, é assim que gosto de trabalhar.

Como são seus shows? É acompanhado por algum músico? Preparou algo especial para a apresentação no SESC? O que as pessoas que nunca assistiram ao seu show podem esperar?
Fiz alguns shows em São Paulo em trio: eu com violão e voz, o Marcelo Jeneci no piano e sanfona e a Laura Lavieri no cello. Fica bem bonito com essa formação, mas para este show no SESC montei uma banda, onde toco guitarra e violão, Caio Filipini (Homem Invisível) na outra guitarra, Caetano Malta (Momo) no baixo e Richard Ribeiro (SP Underground) na bateria. Devemos tocar algumas músicas do disco lançado em 2008 e algumas inéditas.

Quais seus planos para 2009? Tem disco novo vindo por aí?
Sim, tenho planos de lançar um disco em parceria com a carioca Júlia Debasse até o meio do ano. Espero chegar até o final de 2009 com o segundo disco gravado, pois já tenho um bom material pra mostrar. Até lá, tocar mais.

(Por Agência Alavanca - fevereiro 10, 2009 - http://alavanca.art.br)

Um comentário:

  1. Cidadão nem foi citado! E achei meio decepcionante essa de gravar em ingles! Puta coisa de paga-pau pra americano! Num sabe colocar sentimentos em forma de poesias em portugues e parte pra esse bolo de palavras basicas em ingles que qualquer menininha de 14 anos faz. To vendo que nao houve um mindinho de influencia do Catatau que preza pela sua propria regionalidade nas letras e sotaque.
    Mas o cara toca pra caramba, queria ver essa banda dele ó! Fora do Cidadão, eu ja vi The Mockers e Guizado! Muito legal!

    ResponderExcluir