quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Entrevista com Cidadão Instigado (Fernando Catatau), por Felipe Gutierrez.

O seu público é sofisticado. Por que você acha que ele se identifica com temáticas de gente simples (como dentes de ouro ou "os urubus só pensa em te comer")?

Nem sei se meu publico é sofisticado. Talvez seja. Na minha cabeça é porque a música não tem fácil acesso a todas as pessoas. Se tocasse em rádio, no mínimo as pessoas teriam a opção de escolha pra saber se gostam ou não, mas esse é o mal do mercado fonográfico em geral. Enfim...não reclamo muito do que tenho, não. Quem se interessa e gosta, procura e acha.

Você é amigo do Rodrigo Amarante, certo? Tem conversado com ele agora que ele é "gringo"? E você pensa em tentar uma projeção no exterior?

Eu sou muito amigo do Rodrigo e converso com ele sempre. Não acho que ele tenha se tornado "gringo". Pelo menos não noto diferença. Continua sendo o Rodrigo que conheço. Simples e honesto. Em relação ao Cidadão no exterior, nós já tocamos poucas vezes na Europa. Vamos na homeopatia. Não temos disco lançado lá fora, mas tem bastante gente que conhece já.

O "Método Tufo (...)" já vai completar quatro anos. Você está com disco novo para sair? Se a resposta for positiva, pode falar um pouquinho do disco?

Começamos o processo do disco novo. Deve ser lançado no meio do ano. Tem várias músicas que já tocamos ao vivo. Ainda está tudo se resolvendo, mas tenho gostado bastante.

Você escreveu sobre o preconceito em algumas de suas canções. Depois do reconhecimento da crítica, você acha que alguma coisa mudou?

Preconceito sempre vai existir. Isso é natural do ser humano. Iluminado é aquele que aos poucos e com o decorrer da vida vai se desvencilhando dessas coisas, mas no geral é comum. Hoje em dia as coisas estão melhores pra nós, sim, mas mesmo assim é tudo muito lento. Poderíamos fazer mais shows. Isso seria perfeito. Correr o Brasil todo, mas a lentidão é necessária e tá tudo certo.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Cidadão Instigado - O Melhor da Showlivre (2010)


“O Melhor da Showlivre” é um bootleg da banda cearense Cidadão Instigado, montado por OCZD. Trata-se de uma coletânea com as duas apresentações que foram transmitidas pelo canal online do Estúdio Showlivre com a banda. A primeira apresentação, de 2005, tem em seu setlist os clássicos do aclamado “E o Método Tufo de Experiências”, como “Os Urubus Só Pensam Em Te Comer” e “O Tempo”. Já a segunda parte se divide entre os sucessos do novo – e também elogiado – “Uhuuu!”, destacando “Contando Estrelas”, “Escolher Pra Quê?” e “Como As Luzes”. Além disso, o ingrediente surpresa é a versão de "Surfista Calhorda", na voz do Cleyton, do primeiro disco de "Os Replicantes", onde a banda foi desafiada pelos autores da canção. É importante salientar que as faixas estão organizadas de uma maneira onde o ouvinte possa entrar em atmosferas diferentes de maneira degradada. A qualidade de áudio, também, está otimamente editada pelo pessoal da Showlivre. Boa viagem e Uhuuu!

Download: Cidadão Instigado - O Melhor da Showlivre (2010)

FAIXAS:

1)Os Urubus Só Pensam Em Te Comer
2)Contando Estrelas
3)Dói
4)Escolher Pra Quê?
5)Doido
6)O Pinto De Peitos
7)O Pobre Dos Dentes De Ouro
8)O Cabeção
9)Homem Velho
10)Deus É Uma Viagem
11)Como As Luzes
12)Surfista Calhorda (Cover d'Os Replicantes)
13)O Tempo

domingo, 12 de setembro de 2010

Fernando Catatau - Cafofo Entrevista


Áudio da série de entrevistas feitas pelo competente grupo Cafofo sobre o nosso querido Fernando Catatau para que se possa escutar essa ótima entrevista em qualquer lugar:

"Tímido que só, catatau falou sobre o disco, sobre as inúmeras parcerias que faz por aí, sobre como a música está nele desde sempre, do quanto se emocionou ao encontrar o skatista bob burnquist, sobre quanto a vida dele é aquilo que a gente escuta nos discos. de música a amor, passando por ceará, são paulo, arnaldo antunes, o homem velho neil young e diversas outras coisas, a gente se prolongou numa conversa enorme e tão boa que ficou difícil de editar."




Para quem quiser assistir aos videos, é importante ressaltar a ótima edição e filmagem, também:

Entrevista: Regis Damasceno, o Mr. Spaceman


O cearense Regis Damasceno, 37, é daquelas figuras quase onipresentes na cena alternativa brasileira. Se você circula pelos shows das melhores bandas novas do país, certamente já viu o músico no palco incorporando Robert Fripp.

Um dos guitarristas mais prestigiados desta geração, ele é conhecido como integrante do Cidadão Instigado, mas também acompanha Guizado, MoMo e Lucas Santtana, só para citar alguns.

Já tocou com Vanessa da Matta, Tom Zé, Arnaldo Antunes, Otto, Beto Guedes, Jupiter Maçã, dentre outros, e sua primeira banda, Velouria, existiu de 1990 a 1997 e fez parte de uma safra de guitar-bands de Fortaleza pioneiras e bastante talentosas.

Há exatos 10 anos, Regis lançou-se em carreira solo sob a alcunha de Mr. Spaceman, que só estreou em disco com o EP I Beg Your Pardon (midsummer madness), de 2001. Fez alguns poucos shows até 2008, quando finalmente soltou o primeiro álbum, auto-intitulado Mr. Spaceman; multi-instrumentista, toca quase tudo, à exceção da bateria, revezada entre os parceiros Daniel Pessoa e Marcus Ribeiro.

Apesar do currículo extenso, com seu projeto solo Regis é o nome mais jovem enquadrado na possível safra folk brasileira. Talvez por isso é um dos artistas que mais rebatem essa classificação. “Faço música pop”, afirma.

O que podemos considerar música pop hoje em dia é assunto para outra entrevista. Por enquanto, fique com a aula a seguir.

Agência Alavanca – A ideia do festival é apresentar bandas e artistas que têm dado nova cara à música folk. Na sua opinião, como esse dito “novo folk” se diferencia do folk das décadas passadas?
Regis Damasceno - Eu não penso em termos do folk das décadas passadas e de agora… Por folk eu entendo a música folclórica, de raiz interiorana, onde um cantor e seu violão, tal como um menestrel, passa seus sentimentos, inquietações, de cunho social ou não. Isso que chamam de folk no Brasil é apenas um simulacro. É outra coisa. É apenas uma releitura, como sempre acontece, do que está rolando lá fora, ou seja: uma nova safra de cantores com violões… Nada especial. Música folk brasileira pra mim é o sujeito que toca viola caipira, Almir Sater, Paulo Freire. O que chamam folk agora é a velha e boa música pop, com essa queda pra canção, que muito em breve voltará ao seu lugar, que sempre existiu.

O que pesa mais no seu folk, as influências nacionais ou estrangeiras? Se fôssemos colocar o disco “Mr. Spaceman” para dividir uma prateleira com alguma banda ou artista, qual seria e por quê?
Partindo do princípio de que não faço música folk e sim música pop e que canto minhas canções em língua inglesa, fica evidente que a maior parte de minhas influências vem do estrangeiro. Beatles, Smiths, Nick Drake, Donovan, The Divine Comedy, Pink Floyd…. colocaria meu disco nessa prateleira.

Exceto pelo MoMo, com quem você fez alguns shows, conhece o repertório das outras bandas que participam do festival (Supercordas e Vanguart)? Se pudesse incluir outras bandas na escalação, nacionais ou gringas, quais escolheria e por quê?
Conheço o Supercordas, tocamos juntos no Rio há alguns anos. Gosto deles, mas sempre acho que são melhores no disco que ao vivo. Não existia um grupo como eles por aqui, trazendo algumas referências pouco usuais e cantando em português. Gosto muito do trabalho solo do Bonifrate também. O Vanguart não conheço bem. Nunca vi show deles, mas sei que são bem recebidos. O que ouvi e gostei eram umas gravações em inglês, mas agora eles cantam em português e sempre me soa estranha a métrica, a divisão.

Bob Dylan eletrificou o folk americano, o transformando em música “de dedo em riste”, um retrato ácido da sociedade da época. Podemos apontar, em qualquer período, um folk genuinamente brasileiro, com características próprias?
O mais perto que chegamos em termos de contestação foi o Geraldo Vandré, mas que foi esquecido… Não somos bons em fazer canções de protesto, pelo menos com violão. O Tony da Gatorra consegue fazer do jeito dele. Mas pode-se notar que não é o nosso forte esse tipo de consciência político-social através da música.

Acredita que o Brasil atualmente sustente mesmo uma cena folk? Por quê?
Não, isso vai passar muito rápido. O que dura é música pop, sempre se transformando.

Você acompanha uma lista grande de bandas pelo Brasil. O trabalho com outros artistas interfere de alguma forma nas suas composições?
Eu toco basicamente com pessoas/bandas com as quais tenho afinidade musical. Eu não consigo me perceber influenciado por nenhum deles. Sempre coloco minha musicalidade a serviço da canção, é assim que gosto de trabalhar.

Como são seus shows? É acompanhado por algum músico? Preparou algo especial para a apresentação no SESC? O que as pessoas que nunca assistiram ao seu show podem esperar?
Fiz alguns shows em São Paulo em trio: eu com violão e voz, o Marcelo Jeneci no piano e sanfona e a Laura Lavieri no cello. Fica bem bonito com essa formação, mas para este show no SESC montei uma banda, onde toco guitarra e violão, Caio Filipini (Homem Invisível) na outra guitarra, Caetano Malta (Momo) no baixo e Richard Ribeiro (SP Underground) na bateria. Devemos tocar algumas músicas do disco lançado em 2008 e algumas inéditas.

Quais seus planos para 2009? Tem disco novo vindo por aí?
Sim, tenho planos de lançar um disco em parceria com a carioca Júlia Debasse até o meio do ano. Espero chegar até o final de 2009 com o segundo disco gravado, pois já tenho um bom material pra mostrar. Até lá, tocar mais.

(Por Agência Alavanca - fevereiro 10, 2009 - http://alavanca.art.br)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Cidadão Instigado na International Magazine

Cidadão instigado e o método Tufo de experiências é um disco que... nem adianta, o trocadilho vem sozinho: é um dos discos mais instigantes de 2005. O projeto do compositor e cantor cearense Fernando Catatau - cujo currículo inclui trabalhos com Los Hermanos, Zeca Baleiro e Nação Zumbi - serve para expandir a mente do ouvinte e dar trabalho à crítica: é complicado de definir, mas desce tranqüilamente nos ouvidos de qualquer pessoa que procure uma música pop rica em elementos.Sim, porque o Cidadão Instigado é repleto de referências, sem deixar de ser pop - é punk, é brega (em especial), é psicodélico, é "roqueiro" mas também é radicalmente brasileiro, no sentido de que Mundo Livre S/A e Nação Zumbi também o são, sem perder o contato com a música do mundo. Catatau, cantando, soa como um discípulo de Roberto Carlos e Odair José, mas unindo a eles um lado mais escondido da Tropicália (de Tom Zé e Jards Macalé, passando pela fase lisérgica de Ronnie Von, redescoberta a partir do começo dos anos 2000). O disco insinua que, por trás do conceito misturado do pop-rock nordestino dos anos 90, residia uma interface brega - de Roberto, de Odair, de Reginaldo Rossi, de Evaldo Braga, etc. Catatau prova que há conexões entre uma coisa e outra, acrescentando boas doses de doideira, no bom sentido - de letras declamadas, de timbres de sintetizador moog, de fartas percussões, de melodias climáticas, etc.O disco abre com um bolerinho brega ("Te encontra logo"), com cara de jovem guarda garantida pelo órgão, tocado por Daniel Ganja Man - ex-colaborador do Planet Hemp. "Os urubus só pensam em te comer" é experimentação cruzada de rock e música eletrônica, feita para a trilha sonora do curta-metragem de mesmo nome, da cineasta Vanessa Teixera de Oliveira (e premiado no 5º Festival Nacional de Cinema e Vídeo Universitário da UFRJ, em 2001). Em várias músicas, a percussão dá mais peso aos tons eletrônicos, com uso de instrumentos como surdo e zabumba. "O pobre dos dentes de ouro" é uma rumba (ou calipso, quem sabe) com letra curiosa ("imagine o pobre dos dentes de ouro/quer sim, quer sim, quer sim/um pouco de dente de ouro Michelin"), que ganha depois uma batidinha mais tecnopop.Tanto as letras quanto as músicas abusam de uma estética e de um conceito que pouco se via desde os tempos da Tropicália - o contraste entre pobrezas e riquezas, entre ritmos étnicos e roqueirices ou eletronices, etc. E isso fica bem claro no samba-rock melancólico "Silêncio na multidão", que alude a Los Hermanos e Mombojó: uma poesia declamada em meio a uma melodia que lhe serve de trilha sonora, narrando o estranhamento que uma grande metrópole como São Paulo pode causar a quem vem de longe e a adota ("interessante, né?/todos os dias em vários lugares/milhares de pessoas se cruzam mas não se falam/pois não se conhecem e nem ao menos se importam com isso").O disco segue em meio a experimentações interessantes e letras curiosas, como se Catatau fosse o outro lado da moeda de Getúlio Côrtes (hitmaker da jovem guarda): uma espécie de contador de histórias bizarras, cheias de estranhamento. "Calma!", quase uma vinheta em meio a faixas de sete minutos, mostra o lado guitarrista do músico, com um riff pedrada imerso em teclados psicodélicos. "O pinto de peitos!" é até pop demais para os padrões do CD, com refrão memorizável e construção melódica lembrando o melhor da jovem guarda. "Apenas um incômodo" é um reggae lo-fi cuja letra parece dar voz a tudo aquilo que os cantores retratados por Paulo César de Araújo no livro Eu não sou cachorro não sempre quiseram dizer à inteligentizia nacional ("Fale para mim: porquê eu lhe incomodo tanto?/... Será que a minha voz fanha polui a tua sonoridade sobre-humana/ou será simplesmente porque eu me aceito assim/e até gosto de mim?/... Só tenho um sonho que já é meu/e duas palavras para lhe dizer neste instante: me aguente!"). Uma música que estaria pronta para ser gravada pela dupla Sérgio Sampaio & Raul Seixas, caso os dois ainda estivessem por aqui.O método Tufo de experiências é mais um disco de surpresas do que apenas um disco de música. Mostra que música boa pode também ter conceito, sem deixar de ser pop, e mexe com signos que fazem parte de um Brasil que o brasileiro não conhece, repleto de conexões que muitos não enxergam - como os links entre jovem guarda e experimentações de estúdio. Vale citar também a bela capa em digipack e o encarte repleto de ilustrações que lembram um cordel pop, com o curioso desenho de um Roberto Carlos-Odair José triste, empunhando seu violão.

(fonte: http://justonemorenight.blogspot.com)

sábado, 4 de setembro de 2010

Líder do Cidadão Instigado imaginou Neil Young dançando reggae para compor

(Guitarrista Fernando Catatau fala ao G1 sobre o novo álbum, 'Uhuuu!'. Terceiro disco da banda cearense tem participação de Arnaldo Antunes. Lígia Nogueira Do G1, em São Paulo, 08/09/09 - 08h00 - Atualizado em 08/09/09 - 17h41)

Há quem diga que a banda cearense Cidadão Instigado tenha encontradado o equilíbrio em seu novo disco, “Uhuuu!”. De fato, nesse trabalho estão todos os elementos presentes em “O ciclo da de.cadência” (2002) e “O método túfo de experiências” (2005), que consagraram o grupo no cenário alternativo nacional. Se aqui o experimentalismo abre espaço para melodias mais pop, ainda há uma boa dose de psicodelia, tanto na música quanto nas letras.

Bom exemplo é “Homem velho”, que surgiu quando o líder Fernando Catatau imaginou o músico canadense de country-rock Neil Young, 63, dançado reggae. O episódio gerou um mal-entendido que fez com que um jornal noticiasse erroneamente uma “parceria” entre os dois artistas. “Isso foi engraçado”, diz. “Sou muito fã dele e teve uma época em que eu estava ouvindo muito os seus discos. Resolvi homenageá-lo nessa letra, pois mesmo sem conhecê-lo sempre tive a impressão de que ele é trancado, carrancudo”, conta o cantor, guitarrista e tecladista.

A receita que constitui a alma da banda, feita a partir de timbres distorcidos de guitarra e vocais românticos à moda do cantor Odair José, foi sendo apurada ao longo dos anos. Catatau, que já tocou com Otto e Vanesa da Matta, mora em São Paulo desde 2000, mas cresceu em Fortaleza ouvindo baladas roqueiras bregas.

“Nos anos 70 ouvia música brasileira em casa e coisas mais regionais, bem direcionadas. Na década seguinte começou a febre internacional e acho que todo mundo que viveu aquela época tem isso na memória, é algo natural. A gente ia para a beira-mar e sempre rolava música romântica”, diz o ex-surfista de bodyboard cujo gosto eclético vai de Raul Seixas a Pink Floyd, passando por “rock em geral” e reggae.


Além de Catatau, o Cidadão Instigado reúne Regis Damasceno (guitarra, guitarra sintetizada e vocal), Rian Batista (baixo e vocal), Clayton Martin (bateria e programações), Dustan Gallas (teclado e vocal) e Kalil Alaia (técnico de som e efeitos). O novo disco tem várias participações especiais: Arnaldo Antunes, que teve seu mais recente álbum, “Iê iê iê”, produzido por Catatau, empresta sua voz a “Doido” e “O cabeção”; já Edgard Scandurra faz vocais em “Dói”.

Tiquinho (trombone), Hugo Hori (saxofone alto) e Reginaldo (trompete) tocam os metais, bastante presentes no álbum. Marco Axé, que assim como Catatau, é integrante da banda de Otto há oito anos, é responsável pelas congas em “Homem velho” e “O cabeção”. Karina Buhr, integrante do Comadre Fulozinha, toca pandeirola em “Como as luzes”.

'Doido'

“O Arnaldo Antunes me chamou para produzir o disco dele e aí começamos a nos conhecer melhor”, diz Catatau. “A participação dele nas faixas foi algo bem natural. Tinha uma parte das músicas que não conseguia se resolver, elas pediam algo que nenhum de nós tinha a oferecer. Eu disse pro Arnaldo o que era e ele foi fazendo. Foi bem improvisado, um lance de sintonia mesmo.”

Loucura, aliás, é tema recorrente na obra do Cidadão Instigado. Catatau diz que já passou por momentos difíceis. “Hoje dou muito valor ao meu juízo”.

Tanto que a sonoridade da sua guitarra já se tornou uma assinatura – como prova a faixa “Espaçonave”, presente no recém-lançado “Vagarosa”, segundo álbum da cantora Céu. “Só toco com quem eu gosto e ter feito uma carreira com isso me deixa bem feliz. Com a Vanessa da Matta o que eu tinha de fazer era colocar as notas no lugar certo, mas também consegui imprimir minha história. Aos pouquinhos, fui me organizando.”

Para ele, “Uhuuu!”, como indica o nome, é “um disco mais pra cima, por mais que tenha um monte de coisa tensa no meio”. “A gente sabia que ia ser um disco de canção, e isso foi natural. Já tinha as músicas prontas quando cheguei à conclusão que o título só poderia ser esse.”

Cidadão Instigado (resenha Uhuuu!)

(Foto: Patrícia Araújo/ Divulgação)

DAQUI PRO FUTURO

Falando sobre as incompreensões da vida, UHUU!, novo trabalho do Cidadão Instigado é o último disco brasileiro antes que a década acabe
(Por Livio Paes Vilela)


CIDADÃO INSTIGADO
UHUUU!

É possível afirmar que essa década para música brasileira começou com um sentimento de término, uma melancolia profunda. Por mais que se baseie em histórias estritamente pessoais, muito da aura clássica do Bloco Do Eu Sozinho dos Los Hermanos é devido ao mal-estar generalizado que gritam aquelas guitarras distorcidas. Uma espécie de previsão da ressaca que viria pós-11 de Setembro. Não se trata apenas de se identificar com os causos de relacionamentos mal-resolvidos – estamos falando de se sentir relacionado (e a quantidade de fãs da obra só cresce) a um disco árido em esperança (há um pequeno lampejo em “Adeus Você”, mas só), que esconde suas amarguras no sarcasmo bem letrado de Camelo e Amarante. “É o fim, é o fim, é o fim!”, gritava Marcelo, antes de louvar, no desespero, o direito de fingir felicidade pintando o próprio nariz.

O mal-estar de “Bloco” pautou (indiretamente) muito o rock brasileiro que veio depois. Houve os que encararam o sentimento como um norte e o estilhaçaram em pequenas partículas de melancolia, como é possível ouvir ecos no samba nublado de Wado e Romulo Fróes, no pós-mangue do Mombojó, na dureza das palavras do Violins, no niilismo no Vanguart. E houve quem encarou o abismo como possibilidade de um novo começo, uma queda-livre mais feel-good e sem compromisso, cantados por esse novo Pato Fu “uh uh uh la la la ie ie”, pela psicodelia do Cérebro Eletrônico e dos Supercordas, e pelos próprios Los Hermanos, que dois anos depois soltaram um série questionamentos sobre o futuro no seu Ventura.

É nesse cenário que chegamos a UHUUU!, terceiro disco do Cidadão Instigado. Idealizado ainda nos anos noventa, entre Fortaleza e São Paulo, o Cidadão é obra da mente de Fernando Catatau (voz, guitarra e teclados), que acompanhado dos amigos Regis Damasceno (guitarra e violão), Rian Batista (baixo) e Clayton Martin (bateria), canta os dissabores do homem instigado por paixões, pressões, rotinas… a vida, enfim. Um sentimento análogo ao flagrado pelos amigos hermanos no começo da década, mas ainda sim diferente, principalmente por que se tratar de uma bad-trip personalista, única do cidadão construído por Catatau à base de rock progressivo, música brega e surrealismo.

Talvez pelo fato da banda não se encaixar tão facilmente no que aconteceu no rock brasileiro pós-“Bloco”, UHUUU! soe como o disco que une e resume toda essa história que se construiu de 2001 para cá. Por que é exatamente isso que ele é: o último grande álbum antes que a década acabe, aquele dá sentido, com o urro de felicidade do título, à maioria das perguntas e afirmações feitas até aqui.

“Não sei bem dizer o que mudou, mas talvez muita coisa tenha simplificado na vida, e isso deve refletir na música que fazemos”, diz Catatau em relação à mudança de vibe que marca o álbum. UHUUU! não é um grito descompromisso ou descaso com aquilo que a banda cantava nos seus outros discos, é uma expressão da sensação de leveza em perceber que há certas coisas que simplesmente não podem e não precisam ser respondidas. Dessa forma, UHUUU! coloca cada coisa em seu lugar. Ao invés de perguntar “para onde vamos daqui?” ou afirmar que este “é o fim”, o foco é no caminho, na experiência. O resto é resto, uhuuu!

Assim, se O Ciclo da De.Cadência (2002) e O Método Tufo de Experiências (2005) eram obras soturnas, UHUUU! é solar, mas lembrando sempre “que o sol está aí para nos queimar”, como diz o refrão do primeiro single do álbum, “Escolher Pra Quê?”. A faixa é uma espécie de manifesto do álbum e de como será tudo daqui pra frente: Catatau está atento o apocalipse (as inundações, o sol torrando nossas banhas), mas será que vale a pena ficar realmente pensando se ele virá ou não?

Musicalmente, é o disco mais bem gravado do Cidadão Instigado, graças ao apoio do projeto Pixinguinha. A banda flerta pela primeira vez abertamente com o pop (“Contando Estrelas” e principalmente “Como As Luzes”), enquanto conserva as suas premissas básicas, como as baladas românticas brega-setentistas (“Dói”), as esquisitices experimentais (“Ovelinhas”, “A Radiação na Terra” e “Doido”, com uma participação impagável de Arnaldo Antunes) e os tours de force progressivos (“Escolher Pra Quê”, “Deus é Uma Viagem” e “O Cabeção”).

“Eu sempre levei tudo isso muito a sério. Talvez o maior compromisso seja em poder tocar e falar qualquer coisa que se tenha vontade”, afirma Catatau, sobre a história da banda. Nesse sentido, UHUUU! é recompensa para os que o fizeram e para os que têm o prazer de ouvi-lo – aqueles que sabem como foram difíceis os últimos anos para a música brasileira. É um disco para se sentir bem. E, no fundo, precisamos de mais alguma coisa?

NOTA: 9,5

(http://www.revistaogrito.com , 24/08/2009)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Cidadão Instigado

Crédito: Alisson Louback ,25/03/2006, http://www.popup.mus.br

Fernando Catatau não sabe que ele está na moda. Mas, no último show do Los Hermanos no Recife, antes da banda entrar no palco, todos cantavam em coro e dançavam com as mãos as músicas do Cidadão Instigado. Hoje, uma banda que não toca mais na rádio, nem aparece na MTV, já não espanta mais quando encontra tantos fãs assim. Nessa lógica surpreendente da Internet, Catatau e sua banda de Fortaleza chegam como uma das principais atrações nacionais na programação de um Abril pro Rock que não aposta mais no sucesso fácil das grandes gravadoras.

Não é a primeira vez que o Cidadão Instigado toca no Abril. Eles estiveram presentes no palco menor em 2002, com o ainda pouco expressivo primeiro disco. Daquele tempo pra cá, a carreira do líder da banda Fernando Catatau virou o próprio Cidadão Instigado. Virou presença fundamental em algumas bandas que passeiam no universo pop jovem. “Hoje eu toco fixo apenas com o Otto e Vanessa da Mata. No Abril também vou tocar com Lúcio Maia na banda Maquinado, mas já toquei até com o Los Hermanos”. Fernando Catatau hoje mora em São Paulo e deu a entrevista por telefone.

“O Cidadão Instigado é a minha banda mesmo, minha prioridade. Estou sempre viajando com esse outro pessoal, mas dou prioridade a minha agenda”, explica. A música do Cidadão é complicada de colocar em palavras. São interferências eletrônicas que se encontram com trechos de MP3 e poesias que falam que “todas as vacas estão loucas / e os urubus só pensam em te comer”. E está fazendo um sucesso enorme na Internet, nas rádios alternativas e onde mais encontra espaço.

“Eu sei que tem uma galera falando, mas não tenho idéia de quanta gente. Sei que o disco está circulando na Internet, mas eu nem ligo pra isso. A divulgação que a gente tem hoje é meio complicada mesmo”, comenta Catatau. Na já clássica lógica do mercado de música, a som do Cidadão Instigado fez sucesso primeiro no Sudeste, onde eles acabaram fechando o lançado do “Método Tufo de Experiências”, nome do disco, pela Slag Records.

“Antes todo mundo lá achava que a gente era de Recife”, diz já rindo. “Quando você fala Nordeste, o pessoal lá já assume que é do Recife ou Salvador”, completa. O que justifica a confusão é que, até hoje, o Cidadão Instigado só se apresentou em Fortaleza duas vezes. Nessa caminhada lenta para o Nordeste, eles se apresentaram fim de semana passado em Maceió. “Tá rolando legal os shows, devagar, mas tá aparecendo”, avalia.

Parte do movimento migratório dos artistas do Nordeste, Catatau não faz nem drama quando o assunto é mudar para São Paulo. “Sempre foi e sempre vai ser [melhor].Em Fortaleza a gente não tem trampo e aqui tem muito mais coisa acontecendo que lá. Até pensei em mudar para o Recife, mas não funciona, pelo menos não pra mim”, avalia. “Aqui tem circuitos do Sesc, espaços culturais, acho até que meu jeito de tocar agrada mais gente aqui do que em Fortaleza”.

Abril
No Recife, o Cidadão Instigado chega como uma banda totalmente diferente da que foi apresentada em 2002. “A maioria das músicas que a gente tá tocando é do Tufo (o disco novo). No máximo umas duas músicas do anterior”, adianta Fernando Catatau. Eles chegaram a fechar a presença no festival Recbeat, mas acabou não acontecendo. “Eu até entendo, porque a equipe da gente não é tão pequena, não tem facilidade de transportar”, reflete. A banda se apresenta no domingo do Abril pro Rock.

Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências - Cidadão Instigado

(Por Alexandre Matias às 4:26, quinta-feira, 14 de junho, 2007 )

Levada de conga e violão nordestino começam, sedutores, a tentar uma certa aproximação. “O que é que tu quer de mim? Que voz é esta?”, pergunta, carregada de seu característico sotaque cearense, a voz do guitarrista e vocalista Fernando Catatau, líder do grupo Cidadão Instigado, acompanhado do assobio sinistro de um teclado retrô. “Que silêncio é este? Por que tu não fala o que estais pensando? Não quero estar recuando o meu sentimento, a minha alegria. Eu sinto que você está chegando mas se recusa a aceitar”. O som desenha um boteco mal freqüentado, à meia luz, TV ambiente ligada ao fundo só para dar uma mínima sensação de vida, ainda que apenas úmida e viscosa. O pano sujo sobre o balcão, o copo solitário de cerveja, o display para maços de cigarro vazio, a mesa de lata riscada com nomes, palavrões e datas, os azulejos que um dia foram brancos. Tudo inspira o desespero de uma latinidade decadente, caixas de cerveja amarela usadas para esconder o mofo da parede dos fundos. Não dá pra saber quem é o predicado da canção: uma pessoa, um vício, a própria identidade.

Uma guitarra elétrica crua, sem efeitos especiais (a imagem que me vem à cabeça são aqueles velhos amplificadores Giannini, com botões do tipo “tremolo” e “vibrato”), corta o ar ativando baixo e bateria em um melancólico e quase almodovariano bolero, fazendo a consciência do protagonista - provavelmente em algum ponto entre a ressaca e o arrependimento, mesmo ainda sendo noite - tornar-se a banda mais triste do mundo, nos colocando em algum ponto entre “Amarelo Manga” e “Um Drink no Inferno”. “Acho que estou te esperando”, entoa quase inocente, num refrão que sorri, serviçal, por mais uma chance, “o que você talvez já saiba. É, você pode estar certa, talvez não valha apenas dizer mais nada. Mas eu te espero mais perto, estou morrendo e tenho medo de só pensar em você. Te encontra logo com a distância antes que ela te dizer que já é tarde demais”.

E sem sermos perguntados estamos no meio de Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências, tributo a todos os tipos de conflitos pessoais pelo qual Catatau e companhia nos conduzem em seu segundo disco. Terceiro, se contarmos a primeira e pouco ouvida demo, CDzinho de cinco faixas que poucos privilegiados tiveram o prazer de desfrutá-lo ainda em 1999. Ainda no Ceará, a banda dava a ignição em uma inesperada cruza de jazz rock com trovadorismo nordestino e tempero de rádio AM. Longe de apocalipses mais ao leste, de artistas como Cordel do Fogo Encantado, Zé Ramalho e Cabruêra, a intensidade épica do Cidadão vem do apreço dos músicos por seus instrumentos (parente, enviesado, do Cordel de Lirinha, que, optam pela estrada acústica e percussiva, enquanto os cearenses seguem a trilha elétrica e harmônica) que culmina no amor de Catatau por seu instrumento. Imerso entre Johns McLaughlins, Daves Gilmours e Lannys Gordins, a guitarra de Fernando é setentista por definição, virtuosa por natureza e tortuosa, primeiro sentimentalmente, depois como manifesto.

A guitarra torta e passional do Cidadão Instigado por excelência acaba funcionando como metáfora para o disco, tanto em termos temáticos quanto instrumentais. O Método Tufo é um disco sobre o estranhamento, partindo do ponto de vista mais evidente quando se trata do líder do grupo: o fato de ser, na prática, mais um nordestino em São Paulo. Usa diferentes ângulos para mostrar como é se sentir alheio à normalidade em uma cidade cuja normalidade parece imitar a morte, insistindo na fórmula, na aparência, na passividade, na submissão.

Musicalmente, aponta para o quarto de empregada e para a coleção de discos do tio hippie. O tom ao mesmo tempo sóbrio e sombrio que aquela guitarra impõe à qualquer intervenção que se proponha. Tanto que já tocou ao lado da Nação Zumbi, do Hurtmold e do Los Hermanos, sempre impondo seu estilo pessoal, seu timbre agudo e dedilhado torto, nunca alheio a cena alguma. E é justamente sobre o fato de os outros lhe considerarem alheio que começa o discurso que prevalece em todo o álbum.

“Quem pode explicar a razão de pinto de peitos ter nascido com o bico preto? Talvez Deus tivesse um motivo ao perpetuar este ato por mais que pensem ser um defeito”, pergunta em “O Pinto de Peitos”, “um defeito de Deus é sempre perfeito”. “Eu não sei o que falar sobre as estrelas que povoam o meu céu, que brilham e brilham, mas não me dizem nada”, canta na bêbada “Noite Daquelas”.

“Fale para mim, por que eu lhe incomodo tanto? Será que são as minhas sobrancelhas grossas ou serão as minhas tortas? Será que a minha voz fanha polui a tua sonoridade sobre-humana?”, ironiza feliz por saber como a música termina, em ” Apenas um Incômodo”, “ou será simplesmente por que eu me aceito assim e até gosto de mim? Eu sei que eu sou meio empenado e até um pouco desafinado. Mas eu não escondo e não me engano e se você me chamar de paraíba ou baiano não vai me soar estranho!”.

A música continua mas logo perde seu tom dócil e volta à tensão inicial do disco encarando o ouvinte. “Pois eu sei que aos teus olhos/ Eu sou apenas um incômodo/ Que veio do nada para empestar o mundo”, a voz denuncia que o clima da canção mudou, descambando para um instrumental cáustico que aponta para trios tão diferentes quanto Jimi Hendrix Experience, Built to Spill e a banda que acompanhava Arnaldo Baptista no disco Singin’ Alone. “Mas escute/ Eu que vim do nada/ Não tenho encantos, nem correntes/ Só tenho um sonho que é só meu/ E duas palavras para dizer neste instante: ME AGÜENTE!”.

O progressivo é outra assinatura musical do grupo e não é só a marcha “Os Urubus Só Pensam em Te Comer” que remete ao Pink Floyd (especificamente, o biênio 78/79). Ela é apenas uma das músicas que citam bichos (”Todas as vacas estão velhas/ Todas as vacas estão quase lá/ Todas as vacas estão loucas/ E abatidas em seu leito de morte” - as vacas, como os Animals de Roger Waters, chegam até a mugir) e cujo clima tenso e desconfiado é repetido, à prog-blues como o velho Floyd, dentro de qualquer gênero musical que aparecer: rock pesado (em “Calma!”), música latina ou gangsta rap (na mesma “O Pobre dos Dentes de Ouro”, ótica), reggae (”Apenas um Incômodo”), cantiga de lavadeira (”Chora, Malê”, que começa elétrica, cai para o folclore e termina ambient, vazia, ecoando batida policial - perfeita) e shuffle de beira de estrada (”Noite Daquelas”, cômica e crônica)

O holofote central no entanto, divide-se entre a faixa de abertura (”Te Encontra Logo…”, comentada no início), a balada (”O Tempo”) e a belíssima “Silêncio na Multidão”. “O Tempo” é, de longe, a melhor música do disco - uma letra amarga e madura, conformada com a idade, que não funcionaria lindamente tanto no repertório de Roberto Carlos, Odair José, Caetano Veloso, Nervoso ou Mombojó. “Mas o tempo é um amigo preciso que fica sempre observando aquele instante em que alguém tentou se aproximar”, canta, em falsete, acompanhados por vocais de apoio de sonho. O desabafo falado de Catatau é daqueles momentos que nem é bom tentar passar pro texto para não perder toda sua magia atemporal. “Às vezes choro pois sei que não posso deixar que o passado invada meu mundo”, isso tocado ao vivo deve ser fodaço, mesmo sendo intensamente e desavergonhadamente brega.

Já o épico “Silêncio na Multidão” é um exercício de hipnotismo jazz-funk que, disfarçada de crônica social. “Aqui estou eu, há meia hora parado no cruzamento da Brigadeiro Luís Antônio com a Avenida Paulista”, narra falando, fingindo-se bardo, sobre uma monótona cadência reminescente instrumental Doors. “Interessante, né? Todos os dias em milhares de lugares milhares de pessoas se cruzam, mas não se falam, pois não se conhecem e nem ao menos se importam com isso. Mas é apenas um jogo de espelhos e, mais adiante, ele finge ver “um mendigo barbado” que “simplesmente pára e grita um grito de liberdade para a multidão, pois ele não agüenta viver sozinho na escuridão”. O grito do mendigo (a imagem que o próprio Catatau, ele mesmo barbado, imagina que os outros façam dele) é não só todo o Método Tufo como um refrão emblemático e cético, que vem logo a seguir.

“Eu vejo as pessoas que passam por mim, que falam, que ralam, que gritam em agonia e solidão”, canta emocionado, “dói no coração ver meu povo silencioso”. O solo bluesy ressurrecta o mesmo timbre de uma das peças centrais do primeiríssimo disco, a demo de 99, a instrumental “Poeira”. A crítica é simples: a lógica da cidade grande está matando o melhor do brasileiro. E o disco acaba funcionando como o grito do mendigo. Ele não pede para pararem o mundo - ele já desceu e chora por nós.

O que mais impressiona no disco, além de seu fio condutor progressivo, é a sua sintonia com o momento robertocarlista que vivemos. Mais do que qualquer outro contemporâneo seu, Fernando Catatau insiste em uma linha evolutiva que vai para longe da fila bossa nova, Tropicália, canção de protesto, MPB ou o vasto cânone do samba desintelectual. Tateia por um universo passional e adulto, longe da rebeldia ou do prazer, da saudade e do êxtase, da miséria física, social ou espiritual. Trilhando os passos do Rei, ele faz o ponto de intersecção entre o “Prato de Flores” da Nação Zumbi e a indiesmo MPB do Los Hermanos, passando por aquele velho rádio de estante que o dono do bar deixou ligado depois que o jogo acabou e que, de repente, começou a tocar aquela música…