domingo, 29 de agosto de 2010

Catatau bota a guitarra para cantar por ele

Líder da banda Cidadão Instigado mostra hoje, pela primeira vez, seu novo projeto, desta vez instrumental

19 de março de 2010 | 0h 00
(http://www.estadao.com.br)
Lucas Nobile - O Estadao de S.Paulo

Grande parte dos rastilhos de pólvora daquilo que se faz de mais explosivo e diferente na música brasileira atualmente leva ao nome de Fernando Catatau. Aos 38 anos, o guitarrista, compositor e vocalista (nesta ordem de importância) quase não encontra tempo para respirar de tantos trabalhos em que está envolvido. Apenas cinco meses depois de lançar UHUU!, seu terceiro disco com o Cidadão Instigado, sem abandonar a banda de Fortaleza, o bandleader faz hoje, no Zé Presidente, o primeiro show com seu novo projeto, Fernando Catatau e o Instrumental.

O ano passado e o começo de 2010 atestam que o músico é o nome da vez. Catatau criou um excelente álbum com o Cidadão Instigado, lançado em outubro, imprimiu a marca de sua guitarra em Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, de Otto (com quem toca há uma década), em canções já muito cantadas nos shows do cantor pernambucano, como Crua, Seis Minutos e Saudade, no CD Vagarosa, de Céu, em faixas como Bubuia e Espaçonave, e produziu um dos melhores discos de 2009, Iê Iê Iê, de Arnaldo Antunes.

Hoje, ao lado de Samuca (baterista do Instituto), Regis Damasceno (toca guitarra no Cidadão, mas agora atacará no baixo) e Clayton Martins (bongô e guitarra sintetizada, também da banda de Fortaleza), Catatau abrirá mão da palavra para fazer um som instrumental, basicamente voltado para o rock.

Resumindo, serão oito temas do compositor destacando aquilo que ele tem de melhor, a guitarra. No Cidadão Instigado, não que os versos e o canto sejam ruins, mas ficam abaixo de um instrumental fora de série. "No Cidadão, toda parte emocional depende do que eu falo nas letras. As músicas são como uma trilha sonora para os versos. Agora, com esse projeto, que estou encarando com a mesma importância, pensando nos temas, nos solos, nos improvisos, o recado do instrumental é bem mais direto", diz Catatau.

Há dois anos, o compositor tentou engatar um projeto semelhante, abortado antes mesmo da decolagem. Na época, Catatau se reuniu com Rian Batista, baixista do Cidadão Instigado, e Mauricio Takara, baterista do grupo paulistano Hurtmold. Os três chegaram a fazer alguns ensaios, com um formato pensado diferente do atual, mas não seguiram em frente.

O novo projeto do compositor merecia sua estreia em um local com estrutura de primeira. A escolha pelo Zé Presidente - com palco minúsculo, e com muito mais cara de balada do que casa de espetáculos - justifica-se pelo fato de Catatau gostar do lugar, dos donos e, principalmente, por deixar o projeto caminhar de forma natural, sem grandes planos. "Pra você ver como as coisas estão andando, tem coisa que eu não sei explicar porque é tudo muito novo ainda. O show terá participação do Thomas Rohrer, meu amigo suíço, que toca sax. Não estava previsto. Encontrei com ele na rua e chamei para participar. Tinha vontade de armar esse projeto há muitos anos. Dessa vez rolou meio que na marra. Marquei o show e pensei: "Se não fizer agora, não faço mais." Fico com um monte de coisa pra fazer e acabo deixando passar pelo excesso de trabalho", explica o guitarrista.

E esse "monte de coisa" a que ele se refere só parece aumentar, colocando-o cada vez mais em evidência. No momento, Catatau - que já havia feito trilhas para outros filmes, sempre em parceria com amigos, como Pupilo (Nação Zumbi, 3 Na Massa e Los Sebosos Postizos), para Baixio das Bestas -, está compondo para cinema, desta vez sozinho. Será Transeunte, primeiro longa-metragem ficcional de Erik Rocha, filho de Glauber, e que recentemente lançou o sincero e emotivo Pachamama.

Tocando tantos projetos ao mesmo tempo, Catatau diz que ainda sobra tempo para levar a vida pessoal num ritmo normal. "Tem pintado muito trabalho, mas eu não reclamo, não. Eu curto trabalhar mesmo." Privilégio do público, que cada vez mais vai ficando cercado pelos sons inventados pelo instrumentista, como os oito temas novos que serão apresentados hoje. Afinal, ao lado de Lúcio Maia (Nação Zumbi, Maquinado e Los Sebosos Postizos) e Bruno Kayapy (Macaco Bong), Catatau é o grande destaque da guitarra no cenário nacional em meio aos pares de sua geração. Cada um a seu estilo dá voz a guitarras que dispensam todas as previsões, usando seus instrumentos para criar e surpreender a cada show.

TOQUES DE MIDAS

CÉU
Vagarosa
URBAN JUNGLE 2009
Catatau compreendeu com perfeição a atmosfera viajante do disco produzido por Céu, Beto Villares e Gui Amabis, contribuindo com uma guitarra com pegada indiana em Bubuia, e abusando das distorções em Espaçonave, parceria sua com a cantora.

CIDADÃO INSTIGADO
UHUU!
INDIE RECORDS 2009
O guitarrista assinou dez das 11 faixas do terceiro CD de sua banda, de Fortaleza. Mesmo com letras e vocal que não comprometem, o disco precedente ao novo projeto de Catatau já anunciava que o instrumental competente rouba todos os holofotes.

ARNALDO ANTUNES
Iê Iê Iê
ROSA CELESTE 2009
Contribuindo com sugestões de arranjos, como se fosse mais um integrante da banda de Arnaldo Antunes, Catatau assinou a produção de um dos grandes álbuns do ano passado, e o melhor entre os nove da carreira-solo do ex-integrante dos Titãs.

OTTO
Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos
ARTERIAL MUSIC 2009
Acompanhando Otto desde Samba Pra Burro (2000), o guitarrista tocou em quase todas as faixas do disco mais recente e orgânico do cantor e compositor pernambucano, com destaques para Crua, Leite, Seis Minutos e Saudade.

CATATAU
Espaço Zé Presidente. Rua. Cardeal Arcoverde, 1.545, telefone 2894-8546. Hoje, 23 horas. R$ 15

Edgard Scandurra e Cidadão Instigado se apresentam em Caxias, nesta quinta

Shows ocorrem no UCS Teatro Siliane Vieira | siliane.vieira@pioneiro.com (27/05/2010 | 06h10min | http://www.clicrbs.com.br)

Duas gerações do rock brasileiro se encontram no UCS Teatro, em Caxias do Sul, nesta quinta-feira, a partir das 20h. O projeto cultural Na Área traz à Serra os instrumentistas e compositores Fernando Catatau, que se apresenta à frente de sua banda, Cidadão Instigado, e Edgard Scandurra, que faz apanhado musical de seus mais de 25 anos de carreira.


A iniciativa, patrocinada pelo programa Natura Musical, já passou por Caruaru e Campina Grande. O objetivo é levar cultura a preços populares para circuitos universitários, em cidades fora do eixo formado pelas grande capitais.

Ingressos custam R$ 5 e mais um quilo de alimento ou um agasalho. A venda é feita na sede do DCE, no Centro de Convivência da Universidade de Caxias do Sul.

Leia a reportagem completa no Pioneiro desta quinta-feira.

Confira na íntegra as entrevistas com Fernando Catatau e Edgard Scandurra, ambas concedidas ao Pioneiro por e-mail.

Pioneiro: Como começou sua história de amor com a guitarra?
Fernando Catatau: Quando eu tinha 13 anos, um amigo me deu uma fita do Pink Floyd, e foi aí que começou minha história com o rock e, automaticamente, com guitarras. Lembro que, na época, ganhei uma Giannini Les Paul. Tentei tocar, até montei uma bandinha, mas não me garanti muito, daí abandonei a música e fui andar de skate, surfar. Aos 18 anos, eu voltei a tocar e comprei uma Gibson SG que ficou comigo por 15 anos, daí comecei a comprar outras guitarras e virou meio que um vício desgovernado que não parou nunca mais.

Pioneiro: Sintetizar ideias é muito ruim, principalmente quando se trata de arte. Mas, é possível definir em algumas frases o som que o Cidadão Instigado faz?
Fernando Catatau: Rock nacional.

Pioneiro: São três álbuns lançados. Como você avalia a trajetória musical da banda até agora?
Fernando Catatau: Acho que a gente está num caminho bom. Sempre acreditei na homeopatia musical. Hoje temos um trabalho que vai aos poucos se firmando por estarmos ligados aos nossos ideais do começo. Nunca precisamos mudar nada para ter que agradar mercado. O que acho mais massa é que gostamos muito de tocar juntos. Esse, a meu ver, é o ponto principal da banda. São 3 discos, 14 anos de estrada. Então está tudo certo.

Pioneiro: O que a experiência de tocar com artistas como Vanessa da Mata, Otto, Arnaldo Antunes, Karina Buhr, Coletivo Instituto e Los Hermanos agregou ao seu trabalho?
Fernando Catatau: Eu sempre tentei aprender com os outros trabalhos que eu ia fazendo. É muito diferente tocar no Cidadão, que é algo muito pessoal e que dá e tira minha liberdade toda hora. Com outras pessoas eu tenho que me policiar muito para não gritar a mais do que o necessário. Minha escola foi tocar com toda essa galera, e é só gente que eu gosto muito.

Pioneiro: O que ou quem te inspira como músico e compositor?
Fernando Catatau: Pink Floyd, Raul Seixas, Black Sabbath, Alice Cooper, Santana, Led Zeppelin, Roberto Carlos, Bob Marley, Alcione, Richie Ravens, Neil Young, Bee Gees. Tem mais um monte.

Pioneiro: O que você está achando da experiência de tocar fora das grandes capitais com o Scandurra e qual sua expectativa para o show em Caxias?
Fernando Catatau: Acho massa. Tocamos em Campina Grande e Caruaru e agora indo para o sul. Longe dos grandes centros. Tocando para a galera das universidades. Espero que tenha uma galera que curta rock e esteja interessada em ver os shows, pois, se depender da gente, o show vai ser no gás total.

Pioneiro: Quais são os próximos projetos do Cidadão Instigado e seus?
Fernando Catatau: Já tenho pensado no próximo disco do Cidadão. Devemos sentar para conversar no próximo semestre. Conversando também sobre um possível DVD. Tenho meu projeto novo, Fernando Catatau e o Instrumental, que devo começar a gravar em breve. Estou gravando a trilha do longa Transeunte, do Erik Rocha, e pretendo continuar tocando com o povo que gosto.

Pioneiro: O que tem ouvido ultimamente? Tem alguma dica de som para os leitores
Fernando Catatau: Led Zeppelin e Alice Cooper. Acabei de ouvir o disco novo do Guizado, que tá massa.

Pioneiro: Do menino que aprendeu a tocar canções da jovem guarda no violão, ao adolescente que foi tomado pela energia do punk rock, até Benzina, quem é o Edgard Scandurra hoje?
Edgard Scandurra: Sou um cara que vive música 24 horas por dia e que, graças a minha história e meus trabalhos, consegue circular por muitas tribos musicais, da música popular brasileira, do rock, da música eletrônica, experimental, regional, enfim, tenho todas as portas abertas para usar a minha guitarra e minhas ideias a favor da música. Tenho muitos planos e sou feliz por, de uma maneira ou de outra, conseguir realizá-los um a um.

Pioneiro: Seu primeiro álbum solo completou 20 anos e o aniversário inspirou um DVD, certo? Como foi fazer este trabalho repleto de participações?
Edgard Scandurra: Foi uma realização pessoal poder tocar com tanta gente de qualidade incontestável e poder, finalmente, juntar os meus trabalhos num só show passeando por Ira!, Amigos Invisíveis, Benzina e canções inéditas. Parecia que nos tempos do Ira! meus trabalhos solos caminhavam em sentido oposto ao da banda. Hoje, consigo dar uma só direção aos diversos projetos que faço.

Pioneiro: O que te mantém inspirado como músico e compositor?
Edgard Scandurra: A forma como eu toco e componho e como as minhas influências agem em mim, me inspiram sempre a fazer algo que seja revolucionário na música. Esse ideal não morre em mim.

Pioneiro: A importância do Ira! na história do rock nacional é inegável. Na sua opinião, quem está escrevendo esta história hoje?
Edgard Scandurra: Hoje, sem gravadoras, a história é marcada por muitos artistas de muitos guetos diferentes que alcançam sucesso de maneiras democráticas e tecnológicas. É capaz de uma cantora explodir por causa de um vídeo no youtube, ou uma canção no myspace, ou por um trabalho midiático no facebook, ou por outras fontes, sem que o público tome muito conhecimento, sem alarde jornalístico ou sem promoções nas FMs. Isso torna uma tarefa difícil saber quem está escrevendo a história musical hoje em dia. Mas, de uma coisa eu tenho certeza, as mulheres tomaram a frente nessa década e muitas cantoras e compositoras incríveis vêm aparecendo, para o meu agrado, pois sou um entusiasta da maneira feminina de ser.

Pioneiro: O que você está achando da experiência de tocar fora das grandes capitais com o Catatau e sua trupe?
Edgard Scandurra: Fico muito feliz em poder dividir essa turnê com o Cidadão Instigado, banda que eu admiro e me identifico com a sua proposta de trilhar os caminhos musicais através da guitarra.

Pioneiro: Dá para adiantar um pouquinho de como será o repertório deste show em Caxias?
Edgard Scandurra: Tocarei músicas inéditas, músicas do Benzina, Amigos Invisíveis e algumas músicas do Ira!, que eu acho que tem a ver com meu momento.

Pioneiro: Quais são seus próximos projetos?
Edgard Scandurra: Farei um disco com Arnaldo Antunes, somente nós dois, guitarra, voz e bumbo. Estou acompanhando uma excelente cantora, Karina Buhr, tenho um projeto de músicas francesas chamado Les Provocateurs, toco na banda de Arnaldo Antunes em seu projeto Iê Iê Iê, tenho o projeto Pequeno Cidadão, para as crianças, e estou apenas começando minha turnê desse DVD que será lançado muito em breve. Devo estar esquecendo de algo. Também gravei com a Elza Soares em um disco que homenageia Itamar Assunção, estou fazendo uma trilha para uma premiação da Editora Abril, enfim, com o final do Ira!, muitas portas se abriram para mim e eu visito todas.

Pioneiro: O que tem ouvido ultimamente? Tem alguma dica de som para os leitores, seja de artistas atuais ou antigos?
Edgard Scandurra: Descubram Serge Gainsbourg, Eric Satie, Charlotte Gainsbourg e Karina Buhr e vejam como existe muita coisa além das informações que o pop americano procura nos mostrar.

Pioneiro: Há alguma chance de retorno do Ira!?
Edgard Scandurra: Não. Nenhuma chance.