segunda-feira, 17 de maio de 2010

Capítulo 3 – Conheça o autor

(Por: Maria Helena Silveira · Recife, PE, 9/7/2006 )

O músico que ouve desde Araketu até Jazz, passando por A-Ha e funk carioca.


“Gosto de músicas e não de estilos”

A banda dele ganhou os prêmios de Melhor Música (“O Pobre dos Dentes de Ouro”, segundo opinião dos leitores) e Melhor Álbum (de acordo com a crítica) no VI Prêmio Uirapuru da revista O DILÚVIO, e ele ganhou o prêmio de Melhor Compositor pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), ambos do ano de 2005. Suas músicas são em sua maioria autobiográficas e falam de solidão, amor e devaneios. Seu primeiro cd foi um ciclo dividido em cinco partes e o segundo se tornou um método cheio de experiências. Este é Fernando Catatau, o Cidadão Instigado que saiu de Fortaleza e se tornou um Zé Doidim em São Paulo. Agora, morando na paulicéia desvairada, o músico topou ser entrevistado para O DILÚVIO.

Depois de uns contatos por email e orkut, nos encontramos no msn. Catatau tinha acabado de chegar de viagem e mesmo estando cansado não se importou em responder as perguntas. E assim teve início a primeira entrevista de ambos pelo msn. “A gente pode tentar sim, na boa. Se ver que não consigo, falo”. Como em um dia não deu para terminarmos, concluímos por email. E viva a tecnologia!

Em seu primeiro cd, “Ciclo da Dê.cadência”, você brinca com as palavras fazendo com que duas virem uma só e tal. No título do cd a gente já nota isso. Mas você também faz isso nas letras e nos nomes das músicas. Já no segundo cd, “O método tufo de experiências” você não fez mais isso. E algumas músicas desse cd foram compostas há tempos e coexistem com o tempo do primeiro cd. Como foi feita essa divisão? Tipo, você deixou reservada as músicas que não seguiam essa espécie de padrão para um trabalho futuro ou foi uma coisa natural? E por que o segundo cd não tem nenhuma música com essa brincadeira de palavras?

Esse lance de dividir as palavras surgiu quando eu comecei a desenhar. Eu desenhava e depois colocava uns escritos e títulos de duplo sentido. Quando eu fechei o disco (O Ciclo) resolvi dividir ele em cinco partes e brinquei com essa história das palavras. As músicas que entraram nesse disco não tinham muito a ver com o outro. No final tudo se encaixou.

Então todos os desenhos do encarte do Ciclo são seus? Você bolou tudo sozinho?

A arte eu fiz junto com os meninos do Transição Listrada que são de Fortaleza também e trabalham com a gente desde o começo, mas os desenhos são meus.

Quem escuta ambos os seus cds, nota que no segundo você fala bem menos e o tempo das músicas é menor também. O estilo mudou um pouco, mas permaneceu a ponto de você escutar e dizer: Isso é Cidadão Instigado. O fato do primeiro cd não ter sido tão bem aceito (e segundo eu li em algum lugar isso ter sido até motivo de você pensar em desistir da banda) influenciou nessa mudança?

O primeiro disco acabou virando um registro de tudo que eu fiz desde que comecei a compor minhas músicas. Passei 94 e 95 só criando. Em 96 eu montei a banda e só fui gravar em 2001 (acho). Quando o disco foi gravado eu já não agüentava mais nada. Não tive nem muita vontade de trabalhar no disco. Isso não quer dizer que eu não goste dele, mas fez parte de uma época que não me diz mais muito. A mudança do falado pro cantado foi muito pessoal. Eu aos poucos me sinto mais à vontade pra cantar. O Cidadão é a minha diversão. Se eu não tô gostando do rumo que as coisas estão tomando, eu vou e mudo. Então as mudanças foram naturais e não por não ter sido bem aceito. Eu que não aceitei mais muito.

Você disse que aos poucos se sente mais à vontade para cantar. No Método tufo, na musica "Apenas um incômodo" você fala que "Eu sei que sou meio empenado. Talvez até desafinado". Você se acha desafinado? E agora esta se sentindo mais à vontade com sua voz?

Eu tenho me sentido mais à vontade sim e até que tenho desafinado menos, mas continuo desafinando. Na real, hoje eu tento ser mais chapa das minhas imperfeições. Se erro, dou uma consertadinha daqui, outra dali e de alguma maneira chego num ponto que me agrada. Acho que tenho me aceitado mais.

Algumas pessoas dizem que “O Método tufo” é brega. Mas são apenas aquelas que conhecem a primeira e a última música do cd. Quem o ouve inteiro percebe que podem ser encontrados na realidade, muitos estilos ao longo de cada música. Dentro de uma mesma música você já experimenta muitas coisas. Otto em uma entrevista disse que não tem um estilo somente. Eu sinto isso no Cidadão também. Estaria certa?

Acho que sim. Na real, eu não sou de me apegar a rótulos. Gosto de música e não de estilos. Tento ver o que tem de bom em tudo que escuto. Na maioria das vezes gosto de escutar música como leigo, sem o ouvido estudioso de músico. Tenho vários amigos que não entendem algumas coisas que gosto, mas isso é natural da minha personalidade. Gosto de Hendrix da mesma maneira que de Bob Marley, de Roberto Carlos, The Cure...

Tem alguma banda que você escuta, mas pensa: “Esse cara eu tenho vergonha de ouvir”?

Não, porque eu não tenho. Gosto até de músicas do A-Ha, Araketu... (risos)

Muitas pessoas têm preconceito com muitos estilos musicais. Como o funk e o pagode, por exemplo.

Eu sou fã de funk carioca. Mas às vezes me dá bode ouvir jazz. Em outros momentos adoro jazz.

Atualmente você está viciado em algum cd e escuta ele direto? Diz aí um show que você foi e pensou: Caralho, eu quero ser músico e fazer isso.

Eu tenho escutado muitas coisas. Toda hora eu mudo. Tenho escutado meus discos do The cure. Músicas lentas sempre. Reggae toda hora. Um show? Titãs lançando o “Jesus não tem dentes…” em Fortaleza.

Você tocou com Otto no DVD Mtv Apresenta e vem acompanhando ele nos shows pelo Brasil. Você toca também com Vanessa da Mata. Além de ter feito participações nos cds de Los Hemanos e Nação Zumbi. Isso acaba influenciando o Cidadão Instigado? São músicos que você se identifica de alguma maneira?

Eu só toco com quem eu gosto. De alguma maneira eu acabo me influenciando quando participo do trabalho de alguém porque o mais importante pra mim, é conseguir colocar a minha guitarra da maneira que eu acredito sem interferir de maneira prejudicial no trabalho alheio. Não vou tocar com a Nação imitando o Lúcio. Nem dá... Covardia...

Vamos falar um pouco sobre o processo de composição. “O tempo” foi composta durante as gravações e nela você toca praticamente sozinho. Você tem alguma preferência para compor? Prefere estar sozinho?

Normalmente eu componho sozinho. Até porque quando eu escrevo algo é muito pessoal, daí faço a música pensando na letra. Gosto de fazer música com outras pessoas também, mas normalmente com quem tenho muita afinidade.

Quem escuta os seus cds nota que as músicas têm um cunho de autobiográficas. Como no caso, por exemplo, de “O silêncio na multidão” que fala sobre a depressão de se ficar sozinho numa cidade com as dimensões de São Paulo. Você foi pra lá com um amigo que logo depois desistiu e foi embora. Você também pensou em desistir nessa época? Como foi o processo de conhecer as pessoas envolvidas com música na cidade? Como foi ir conhecendo os músicos e começar a arrumar lugares para tocar e tal...

Nessa época (94), foi muito difícil pra mim. Eu ficava bolando pelo Bexiga e conhecia algumas pessoas que tocavam nuns barzinhos. Eu pensei diversas vezes em voltar, tanto que depois de um tempo eu mudei pro Rio, que também não foi muito bom, daí voltei pra Fortaleza e foi quando montei a banda. Aos poucos eu fui conhecendo umas pessoas em São Paulo. Vinha pra passar uns dias, voltava, dava uns meses estava em São Paulo novamente. Na homeopatia. Continua sendo.

Com que freqüência você volta a Fortaleza? É uma cidade que você gosta de visitar?

Fortaleza é minha cidade e eu sempre gostei muito de estar e ser de lá. Hoje em dia, pelo rumo que ela tomou, me deixou totalmente desiludido. O ruim é que sempre falo isso e não é conversa de quem tá fora. Desde que abriram as portas pro turismo lá, a cidade foi se afundado cada vez mais. Hoje é triste de ver. Não tem um lugar que seja seguro lá. Até sua casa ficou perigosa. Só os que têm muita grana e costas largas conseguem ter proteção. Pra mim é uma decepção. O turismo sexual, a pior arquitetura do mundo na minha cidade.

Lá você formou sua primeira banda, a Companhia Blue, que pelo nome parece ser completamente diferente do que você faz hoje no Cidadão. Você acha que evoluiu musicalmente ou apenas são estilos diferentes? Agora você faz o que realmente sempre quis fazer, por exemplo.

A Companhia Blue e o Cidadão são trabalhos completamente diferentes. Na Companhia eu era apenas guitarrista e o Júnior Boca que cantava. Até as músicas que eu fazia eram pensadas pra ele cantar, mas foi uma época muito legal, e era o que eu queria tocar. O Cidadão é bem mais pessoal. São minhas musicas. Eu canto. Eu escrevo. Então são momentos diferentes, cada um na sua importância.

“Os urubus só pensam em te comer” é a trilha sonora original de um curta-metragem homônimo de Vanessa Teixeira de Oliveira. Ela chegou para você, te mostrou o vídeo e você compôs ou você acompanhou todo o processo de realização do curta e foi compondo aos poucos?

A Vanessa me chamou pra fazer a trilha, e eu fiz toda em casa em um porta-estúdio de rolo. Toquei todos os instrumentos que na maioria eram teclados, coloquei umas guitarras. O nome do curta é esse. Daí quando decidi colocar a música pra banda tocar, eu completei a letra e coloquei o titulo nela.

O Cidadão Instigado já tocou no Sesc em São Paulo no Projeto Prata da Casa para o lançamento do “O Ciclo da Dê.cadência”. Lá esse movimento do Sesc rola de uma forma muito legal. Já em Recife e em Fortaleza, por exemplo, o Sesc não é tão forte e não faz tantos shows. O que você acha de projetos como esses que rolam no Sesc e também outros como os do Itaú Cultural?

Acho fundamental que existam lugares assim. É uma pena que isso não passe do circuito sudeste. Às vezes até tem em outros cantos, mas em menos quantidade. Só que mesmo aqui em São Paulo, não é tão fácil tocar nesses eventos, então quando acontece de você tocar é muito bom porque se recebe decente, tem um som legal...

A APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) divulgou na última segunda, dia 12, os melhores de 2005. Na categoria Música Popular você ganhou como melhor compositor. Já no VI Prêmio Uirapuru, da revista O Dilúvio, o Cidadão Instigado levou os prêmios de Melhor Música e de Melhor Álbum. Você acha que os prêmios que vem ganhando é como se fosse uma consolidação do seu trabalho? Uma espécie de reconhecimento uma vez que o Cidadão não é uma banda que toca na MTV e nas rádios?

Tenho ficado muito feliz com tudo que tem rolado em torno do nosso novo disco. Várias coisas boas estão acontecendo agora por causa dele. É um bom momento pra gente e estamos tentando aproveitar ao máximo, fechando shows e tentando chegar mais próximos uns dos outros em termos musicais e emocionais. O bom é que todas as coisas boas que estão vindo são naturais. Nunca precisei fazer uma música de determinada maneira pra agradar a pessoa que precisa ouvir. Tenho necessidade de criar música que seja verdadeira pra mim. E mentir não seria muito justo com minha pessoa e com os que estão ao meu redor.

Como é isso de agora ter um estúdio, o Totem? Pode-se dizer que agora você tem espaço para suas pirações?

Aqui é meu espaço de tudo. Gravamos, tomamos café no fim de tarde, às vezes tem churrasco, os amigos passando… dá nem vontade de sair.

(texto originalmente publicado no site O Dilúvio - http://www.odiluvio.com.br/)

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