sexta-feira, 14 de maio de 2010

Capítulo 2 – O método cheio de experiências

(Por: Maria Helena Silveira · Recife, PE, 9/7/2006)

O “Cidadão Instigado e o método tufo de experiências” está ali, olhando para o leitor-ouvinte, pronto para ser lido e escutado. Em meio ao silêncio do quarto, ele tem suas dúvidas se está preparado para seguir com aquilo. Foram tantas sensações e pensamentos que o Ciclo causou que ele está confuso com o que deve fazer. Então, acende um cigarro, pega mais um café e segue adiante.

O encarte agora tem a forma mais tradicional e linear, mas isso não significa que seu conteúdo o seja também. O leitor-ouvinte finalmente liga o som, abre o mini-livro e sorri. Os primeiros acordes de “Te encontrar logo...” são suficientes para ele ter a certeza de que fez a escolha certa.

“Acho que estou te esperando / O que talvez você já saiba / Você pode estar certa / Talvez não vale a pena dizer nada”. O órgão de Daniel Ganja Man ajuda a dar esse tom melancólico e até meio brega da primeira história de amor do Método tufo.

Do lado direito tem um cara lendo o livro “Os urubus só pensam em te comer”. Mas ele poderia estar também vendo o vídeo, já que a música é a trilha sonora original do curta homônimo de Vanessa Teixeira.

Catatau então vem com aquela voz e afirma: “Todas as vacas estão velhas / Todas as vacas estão quase lá / Todas as vacas estão loucas / E abatidas no seu leito de morte”. O leitor-ouvinte concorda e em meio ao psicodélico ritmo gagueja com o narrador: “Pó-pois já é tarde e os urubus só pensam em te comer”. E lá vem ela, a vaca, para encerrar sua história com um fundo musical instrumental indescritível.

Ele então dá um gole no café e vira a página para conhecer a história de “O pobre dos dentes de ouro”. Maurício Takara com sua zabumba, André Malê com seu elu, juntamente com os outros Cidadãos Instigados fazem surgir um ritmo meio caribenho que invade o quarto e, se o leitor-ouvinte soubesse, levantaria para dançar. Mas logo chega Marcos Axé com o djembe e os efeitos fazendo tudo mudar. A faixa acaba completamente diferente de como começou.

Ali no cantinho está ele, óculos escuros, cabelos grandes, de perfil. Um desses transeuntes que passaram pelo narrador durante essa meia hora em que ele esteve parado num cruzamento da paulicéia desvairada “pensando / simplesmente pensando”. Catatau nesse devaneio conta sobre “O silêncio na multidão” em meio a uma melodia que oscila de acordo com o que vem sendo contado.

E lá está ele, de volta, o Zé Doidim, no cruzamento da Brigadeiro Luiz Antônio com Avenida Paulista, dessa vez sendo um personagem comum e não o principal. Aos três minutos o narrador se cala e deixa os instrumentos falarem um pouco. O leitor-ouvinte então pensa que se trata dos minutos finais da história. Engano. Aos cinco minutos Catatau volta para concluir a história que só acaba aos sete.

O leitor-ouvinte chegou a metade do encarte e um desenho lhe mostra o “Tufo experimentos”. Como o cd está rolando direto, a introdução de “Calma!” é pouco tempo para se entender do que se trata. Na dúvida entre acompanhar o livro junto com o áudio ou dar uma pausa no som, ele opta pela primeira opção pensando em voltar ao meio depois que chegar ao fim.

Catatau entre apitos chega contando que simplesmente precisa de um copo de água com açúcar para ficar tranqüilo e Clayton Martin diz “Caaaaalma garotãããão” e manda trazerem esse copo, que na verdade vira um balde d’água, para que o leitor-ouvinte capte com seus ouvidos o que sua mente rapidamente imagina.

Mais calmo, Catatau segue com sua narração e começa a contar a vida de “O pinto de peitos” que fala sobre um pinto que tem peitos e um bico preto. E as pessoas só conseguem ver o seu bico preto por ser um defeito, já que “todo bico é amarelo queimado”. Mas “Certas coisas acontecem na vida / Não para assustar / Mas sim, para mudar / O entendimento sobre as coisas absolutas”. Para o nosso bom leitor-ouvinte, meia palavra já basta.

Mudando de posição porque as costas já lhe doem, o leitor-ouvinte observa que no alto das duas páginas onde estão quatro histórias, ela aparece: uma sereia, que na verdade é uma constelação, em meio às estrelas que o cara ali do canto esquerdo, bem pequeno, está observando.

A autobiografia do autor aparece na faixa sete e ele chega para contar que é “Apenas um incômodo”. Cinco minutos é o tempo que Catatau precisa para dizer o porque de tal afirmação com a ajuda de um reggae daquele jeito que o Cidadão Instigado faz. O que não significa obviamente que seja parecido com os do áudio do mini-livro anterior.

Talvez o Malê que Catatau está apresentando seja o mesmo André Malê que apareceu na história três com seu elu. Talvez, o leitor-ouvinte pensa. O fato é que sendo ou não, “Chora, Malê” é a oitava história e a maneira leve com a qual o autor descreve esse personagem torna-se um dos pontos mais atrativos desse mini-livro. “Traga uma mulher, uma cachaça e um violão / Escute o toque do tambor / Para entender o seu coração”.

Virando mais uma vez a página, o leitor-ouvinte então chega a penúltima história e, portanto, quase ao final. Logo ali, no cantinho direito da página, está o cara que teve uma “Noite daquelas”. Suas lágrimas e a maneira como ele segura seu violão não negam tal fato.

A brincadeira com as palavras volta nessa história. E de um jeito instigado o “Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, bonc bonc” torna-se onomatopéia dos diálogos inusitados dos personagens. Catatau conta como a solidão pode fazer com que o sujeito tente aliviar a dor no coração gritando mesmo que ninguém o ouça. O autor conta que “Eu estou meio opaco / E os seres opacos precisam de qualquer coisa para se iludir”, o que justifica a tentativa em falar com as estrelas antes da chegada de uns amigos para então ele perceber que na verdade só queria conversar com alguém.

A sombra de um banco causada por uma parte do sistema solar. Esse é o cenário da última história desse método cheio de experiências. “O tempo” chega para encerrar de uma maneira calma e melancólica, ou seja, Catatau em sua essência.

O leitor-ouvinte pega o maço enquanto escuta os últimos acordes e percebe que não tem mais cigarros. Olha para o som e lá estão os 51:04. Ainda meio atordoado com o ciclo que o fez iniciar um tufo de experiências, coloca seu chinelo e vai à padaria. Ele ainda tem um Tufo experimentos para compreender.

(texto originalmente publicado no site O Dilúvio - www.odiluvio.com.br)

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