domingo, 23 de maio de 2010

Delírios Cotidianos

04/09/2009
Delírios cotidianos
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)


Por Filipe Luna

A onomatopeia do título pode ser a maneira de Fernando Catatau fazer as pazes com os tempos de bodyboarder no litoral cearense. Ou é estado de espírito. Ou é apenas um título. Mas a simplicidade no batismo do novo trabalho talvez seja reflexo do momento em que está a banda Cidadão Instigado – que, além de Catatau (guitarra, teclado, voz e letras), tem Regis Damasceno (guitarra e violão), Ryan Batista (baixo), Clayton Martin (bateria) e o técnico de som Kalil Alaia. Se o primeiro disco, “O Ciclo da De.cadência” (2002), tinha uma disléxica vontade de experimentar tudo e o segundo ("O Método Tufo de Experiências", de 2005) afundava as mágoas na música romântica de AM e condensava melhor as ideias no formato de canção, o terceiro reúne as qualidades dos anteriores e espelha todas as facetas de Catatau como nenhum outro. Estão lá a psicodelia, o tema recorrente da loucura, o romantismo sem vergonha da própria cafonice.

E isso não é pouco para um músico que, como pouquíssimos de sua geração, consegue colocar sua personalidade artística escancarada nas músicas – ache as letras dele infantis ou sem sentido, ache a voz desafinada em agudos exagerados. Não importa. O que foge do que é correto é o acerto de Catatau. Tudo isso faz completo sentido na obra dele. Tudo isso torna o guitarrista um artista com personalidade. Tudo isso faz o ouvinte acreditar que isto é Catatau – e mesmo que não seja, o que importa é que ele nos faz acreditar. Não por acaso, o artista é quase uma unanimidade no meio e é figura onipresente na produção musical conteporânea: é guitarrista do Otto, do Instituto, colabora com Vanessa da Matta, compõe com Rodrigo Amarante, é produtor do novo disco do Arnaldo Antunes, participou do último trabalho da Céu e por aí vai. Elogios surgem de todos os lados e, somados, eles ajudam a decifrar a estética da banda e seu líder.

"O Fernando é um cara autêntico, honesto com o que faz, tira um som da guitarra que é pra poucos, ama o Roberto Carlos e isso só faz a proximidade com o público aumentar mais e mais, lança ideias profundas nas letras aparentemente toscas e não abre muitas concessões! Ele sim é rock and roll", rasga Céu. "Acho Catatau uma figura! Confesso que não me ligo muito no jeito dele tocar guitarra, me interesso mais pelas experimentações da banda toda. Acho que ali é uma soma, não é só o Catatau. Me identifico com as letras dele: são engraçadas e ao mesmo tempo pesadas e narram a relação de um nordestino com uma cidade grande", acrescenta Lucas Santtana. "Catatau e seu Cidadão Instigado parecem ser a realização na prática do que propunha a Tropicália: tudo o que nesta era conteúdo pragmático se consolida como linguagem. A música dita brega, a baixa e a alta cultura, a guitarra elétrica, o regionalismo, a mídia, a publicidade, a tecnologia... Está tudo aqui não mais pela chave do pensamento, mas pela força da intuição. Se a música brasileira já há algum tempo atravessa um período brilhante, certamente o Cidadão Instigado é a ponta de lança deste momento", arremata Romulo Fróes.

É curioso perceber Catatau se definir tanto como um artista num disco em que a banda tem importância fundamental no resultado final. O som do conjunto costura todos os arranjos esbanjando entrosamento – reflexo dos anos em turnê com a mesma formação. E se "U-huuu" é um álbum de banda, esta só ajudou a ressaltar ainda mais a carismática personalidade do seu líder. E foi com ele que a Radiola Urbana trocou algumas perguntas por e-mail para saber mais sobre o novo trabalho.

Porque o título do disco é “Uhuuu”?
Foi o título que consegui imaginar quando terminamos o repertório. Talvez pelo espírito de todos nós. Não sei bem.

O trabalho novo lembra mais o segundo disco do que o primeiro, concorda?
Acho que esse disco se resolve bem mais em relação às canções – o que tem muito a ver com o “Método Tufo” –, mas também tem vários momentos de improvisações como no “Ciclo da De.cadência”. Na real mesmo, eu só acho que é um novo disco, uma continuação do que já fazemos há 12 anos. É difícil pra mim ficar analisando disco a disco, ou comparando disco com disco. Eu fiquei feliz com o resultado final.

O fato de a formação da banda ser a mesma que te acompanhou em turnê nos últimos anos influiu durante a composição desse trabalho novo?
Lógico, somos uma banda de grandes amigos. Vivemos, além do som, muitas coisas juntos. Isso reflete totalmente no som porque acabamos nos entendendo muito bem. Nada melhor do que tocar junto há muito tempo, pois você começa a perceber o caminho que cada um pode ir e é influenciado por isso no seu caminho também

Você acha que está cantando melhor nesse disco?
Sei não... Talvez desafine menos, mas eu não me percebo muito não. Sempre acho que vai ser ruim.

Por que a loucura é um tema tão recorrente nas suas músicas?
Porque vivemos sempre a um fio de perder o foco central. Já tive vários momentos na vida em que pensei que ia endoidar de vez, mas consegui manter o nível de loucura aceitável à minha pessoa. A cabeça tem que ser sempre bem preservada. É muito fácil lascar tudo.

Suas canções românticas são inspiradas em eventos biográficos?
Todas as minhas letras são biográficas, sejam elas sobre amor, loucura ou qualquer outro tema.

Essas composições, as românticas, tem fortes ecos de cantores românticos populares. Que tipo de música popular atual te interessa?
Música romântica é música romântica. Gosto de Roberto Carlos, Bee Gees, Nina Simone, Bob Marley, Legião Urbana. Escuto as músicas que me emocionam. Quando se fala de amor em uma música, você automaticamente caminha pro lado da música romântica, e isso não importa que estilo você faz. Eu gosto de falar do amor.

A sua participação como músico em outros projetos afeta de alguma maneira a sonoridade do Cidadão? Como?
Qualquer coisa que você faça na vida interfere em todas as outras. Tocando com pessoas diferentes, eu aprendendo a respeitar o espaço diferente de cada um e tento só colocar minha guitarra onde é necessário. Dessa maneira, você vai aprendendo que nem sempre precisa de muita coisa pra falar o que se quer.

Saiu no jornal um tempo atrás algo sobre uma suposta parceria entre você e Neil Young. Isso é verdade?
Não é verdade não. Foi a galera do jornal que escreveu errado. Eu fiz a música "Homem Velho" em homenagem a ele, pois sempre achei que ele é um sujeito de “cara fechada”. Daí fiquei imaginando ele na Canoa Quebrada (praia do litoral cearense) dançando reggae e oferecendo canções de amor pra alguma nativa.

Tem alguma parceria dessas que você fez e não lançou?
Já fiz músicas com o Rodrigo Amarante, que um dia vão ser gravadas, com o Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata. Sou satisfeito com minhas poucas parcerias. Consigo me organizar melhor sozinho pra fazer música, mas quando sai algo muito massa com alguém diferente é bem legal porque você acaba se vendo com outros coloridos.

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