segunda-feira, 31 de maio de 2010

Fernando Catatau responde | Morte & Sexualidade 3 de 3

(Por: Daniel Edmundson, 11.03.2010, http://www.aprancheta.com)

Lulina indicou Laura Wrona, que indicou a Juliana R, que escolheu o tema “Futuro” para o Bob Ferraz, que indicou o Mané do Café, que indicou o Cristiano Holtz que escolheu o tema “Morte & Sexualidade” para o Heitor Freitas, que indicou Cibelle, que indicou Fernando Catatau do Cidadão Instigado para responder às nossas 7 perguntas.

domingo, 23 de maio de 2010

+SHUFFLE. Fernando Catatau, por Tiago Nicolas

Cidadão Fernando Catatau, o Instigado, anda fazendo o cabeção da moçada por aqui. Troquei aquela boa e velha ideia de som com o sujeito, para os cidadãos leitores poderem ter uma noção simplória do que o astro da psico-brega-prog-pop-revolutional-synth-spiritual-art-rock brasileira transou, transa e transará. Uhuuuuuuuuu!

(Por Tiago Nicolas)

Seu disco mais pacato
Os do James Taylor. Tenho alguns dele.

Um outro disco que poderia se chamar Uhuuu
Eddy Grant – "Killer On The Rampage"

Disco de um cidadão obeso

Não é um cidadão, mas é a melhor cantora que eu conheço... Alcione – "Morte de um Poeta"

Um presente de Papai Noel
Elton John, talvez... Nem lembro qual. Esse se garante!

Um disco que poderia se tornar um musical doido

Raul Seixas – "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10"

Um disco que você não entende mas mesmo assim pira muito

Daminhão Experiença – "Daimião"

O disco do cidadão cachoeiro-itapemirense

Vixe... O de 1977, "Amigo". Mas tem o de 73, "A Cigana"...

Um disco tributo

Genny Garrett – "Pursuance". Só musica do Coltrane.

Um disco autografado

Queria um do Roberto Carlos e um do Richie Ravens

Um split que poderia chocar o mundo se fosse lançado hoje

Cidadão Instigado – "Uhuuu" / Voivod – "Rrröööaaarrr"

Delírios Cotidianos

04/09/2009
Delírios cotidianos
(http://www.radiolaurbana.com.br/
)


Por Filipe Luna

A onomatopeia do título pode ser a maneira de Fernando Catatau fazer as pazes com os tempos de bodyboarder no litoral cearense. Ou é estado de espírito. Ou é apenas um título. Mas a simplicidade no batismo do novo trabalho talvez seja reflexo do momento em que está a banda Cidadão Instigado – que, além de Catatau (guitarra, teclado, voz e letras), tem Regis Damasceno (guitarra e violão), Ryan Batista (baixo), Clayton Martin (bateria) e o técnico de som Kalil Alaia. Se o primeiro disco, “O Ciclo da De.cadência” (2002), tinha uma disléxica vontade de experimentar tudo e o segundo ("O Método Tufo de Experiências", de 2005) afundava as mágoas na música romântica de AM e condensava melhor as ideias no formato de canção, o terceiro reúne as qualidades dos anteriores e espelha todas as facetas de Catatau como nenhum outro. Estão lá a psicodelia, o tema recorrente da loucura, o romantismo sem vergonha da própria cafonice.

E isso não é pouco para um músico que, como pouquíssimos de sua geração, consegue colocar sua personalidade artística escancarada nas músicas – ache as letras dele infantis ou sem sentido, ache a voz desafinada em agudos exagerados. Não importa. O que foge do que é correto é o acerto de Catatau. Tudo isso faz completo sentido na obra dele. Tudo isso torna o guitarrista um artista com personalidade. Tudo isso faz o ouvinte acreditar que isto é Catatau – e mesmo que não seja, o que importa é que ele nos faz acreditar. Não por acaso, o artista é quase uma unanimidade no meio e é figura onipresente na produção musical conteporânea: é guitarrista do Otto, do Instituto, colabora com Vanessa da Matta, compõe com Rodrigo Amarante, é produtor do novo disco do Arnaldo Antunes, participou do último trabalho da Céu e por aí vai. Elogios surgem de todos os lados e, somados, eles ajudam a decifrar a estética da banda e seu líder.

"O Fernando é um cara autêntico, honesto com o que faz, tira um som da guitarra que é pra poucos, ama o Roberto Carlos e isso só faz a proximidade com o público aumentar mais e mais, lança ideias profundas nas letras aparentemente toscas e não abre muitas concessões! Ele sim é rock and roll", rasga Céu. "Acho Catatau uma figura! Confesso que não me ligo muito no jeito dele tocar guitarra, me interesso mais pelas experimentações da banda toda. Acho que ali é uma soma, não é só o Catatau. Me identifico com as letras dele: são engraçadas e ao mesmo tempo pesadas e narram a relação de um nordestino com uma cidade grande", acrescenta Lucas Santtana. "Catatau e seu Cidadão Instigado parecem ser a realização na prática do que propunha a Tropicália: tudo o que nesta era conteúdo pragmático se consolida como linguagem. A música dita brega, a baixa e a alta cultura, a guitarra elétrica, o regionalismo, a mídia, a publicidade, a tecnologia... Está tudo aqui não mais pela chave do pensamento, mas pela força da intuição. Se a música brasileira já há algum tempo atravessa um período brilhante, certamente o Cidadão Instigado é a ponta de lança deste momento", arremata Romulo Fróes.

É curioso perceber Catatau se definir tanto como um artista num disco em que a banda tem importância fundamental no resultado final. O som do conjunto costura todos os arranjos esbanjando entrosamento – reflexo dos anos em turnê com a mesma formação. E se "U-huuu" é um álbum de banda, esta só ajudou a ressaltar ainda mais a carismática personalidade do seu líder. E foi com ele que a Radiola Urbana trocou algumas perguntas por e-mail para saber mais sobre o novo trabalho.

Porque o título do disco é “Uhuuu”?
Foi o título que consegui imaginar quando terminamos o repertório. Talvez pelo espírito de todos nós. Não sei bem.

O trabalho novo lembra mais o segundo disco do que o primeiro, concorda?
Acho que esse disco se resolve bem mais em relação às canções – o que tem muito a ver com o “Método Tufo” –, mas também tem vários momentos de improvisações como no “Ciclo da De.cadência”. Na real mesmo, eu só acho que é um novo disco, uma continuação do que já fazemos há 12 anos. É difícil pra mim ficar analisando disco a disco, ou comparando disco com disco. Eu fiquei feliz com o resultado final.

O fato de a formação da banda ser a mesma que te acompanhou em turnê nos últimos anos influiu durante a composição desse trabalho novo?
Lógico, somos uma banda de grandes amigos. Vivemos, além do som, muitas coisas juntos. Isso reflete totalmente no som porque acabamos nos entendendo muito bem. Nada melhor do que tocar junto há muito tempo, pois você começa a perceber o caminho que cada um pode ir e é influenciado por isso no seu caminho também

Você acha que está cantando melhor nesse disco?
Sei não... Talvez desafine menos, mas eu não me percebo muito não. Sempre acho que vai ser ruim.

Por que a loucura é um tema tão recorrente nas suas músicas?
Porque vivemos sempre a um fio de perder o foco central. Já tive vários momentos na vida em que pensei que ia endoidar de vez, mas consegui manter o nível de loucura aceitável à minha pessoa. A cabeça tem que ser sempre bem preservada. É muito fácil lascar tudo.

Suas canções românticas são inspiradas em eventos biográficos?
Todas as minhas letras são biográficas, sejam elas sobre amor, loucura ou qualquer outro tema.

Essas composições, as românticas, tem fortes ecos de cantores românticos populares. Que tipo de música popular atual te interessa?
Música romântica é música romântica. Gosto de Roberto Carlos, Bee Gees, Nina Simone, Bob Marley, Legião Urbana. Escuto as músicas que me emocionam. Quando se fala de amor em uma música, você automaticamente caminha pro lado da música romântica, e isso não importa que estilo você faz. Eu gosto de falar do amor.

A sua participação como músico em outros projetos afeta de alguma maneira a sonoridade do Cidadão? Como?
Qualquer coisa que você faça na vida interfere em todas as outras. Tocando com pessoas diferentes, eu aprendendo a respeitar o espaço diferente de cada um e tento só colocar minha guitarra onde é necessário. Dessa maneira, você vai aprendendo que nem sempre precisa de muita coisa pra falar o que se quer.

Saiu no jornal um tempo atrás algo sobre uma suposta parceria entre você e Neil Young. Isso é verdade?
Não é verdade não. Foi a galera do jornal que escreveu errado. Eu fiz a música "Homem Velho" em homenagem a ele, pois sempre achei que ele é um sujeito de “cara fechada”. Daí fiquei imaginando ele na Canoa Quebrada (praia do litoral cearense) dançando reggae e oferecendo canções de amor pra alguma nativa.

Tem alguma parceria dessas que você fez e não lançou?
Já fiz músicas com o Rodrigo Amarante, que um dia vão ser gravadas, com o Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata. Sou satisfeito com minhas poucas parcerias. Consigo me organizar melhor sozinho pra fazer música, mas quando sai algo muito massa com alguém diferente é bem legal porque você acaba se vendo com outros coloridos.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Capítulo 3 – Conheça o autor

(Por: Maria Helena Silveira · Recife, PE, 9/7/2006 )

O músico que ouve desde Araketu até Jazz, passando por A-Ha e funk carioca.


“Gosto de músicas e não de estilos”

A banda dele ganhou os prêmios de Melhor Música (“O Pobre dos Dentes de Ouro”, segundo opinião dos leitores) e Melhor Álbum (de acordo com a crítica) no VI Prêmio Uirapuru da revista O DILÚVIO, e ele ganhou o prêmio de Melhor Compositor pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), ambos do ano de 2005. Suas músicas são em sua maioria autobiográficas e falam de solidão, amor e devaneios. Seu primeiro cd foi um ciclo dividido em cinco partes e o segundo se tornou um método cheio de experiências. Este é Fernando Catatau, o Cidadão Instigado que saiu de Fortaleza e se tornou um Zé Doidim em São Paulo. Agora, morando na paulicéia desvairada, o músico topou ser entrevistado para O DILÚVIO.

Depois de uns contatos por email e orkut, nos encontramos no msn. Catatau tinha acabado de chegar de viagem e mesmo estando cansado não se importou em responder as perguntas. E assim teve início a primeira entrevista de ambos pelo msn. “A gente pode tentar sim, na boa. Se ver que não consigo, falo”. Como em um dia não deu para terminarmos, concluímos por email. E viva a tecnologia!

Em seu primeiro cd, “Ciclo da Dê.cadência”, você brinca com as palavras fazendo com que duas virem uma só e tal. No título do cd a gente já nota isso. Mas você também faz isso nas letras e nos nomes das músicas. Já no segundo cd, “O método tufo de experiências” você não fez mais isso. E algumas músicas desse cd foram compostas há tempos e coexistem com o tempo do primeiro cd. Como foi feita essa divisão? Tipo, você deixou reservada as músicas que não seguiam essa espécie de padrão para um trabalho futuro ou foi uma coisa natural? E por que o segundo cd não tem nenhuma música com essa brincadeira de palavras?

Esse lance de dividir as palavras surgiu quando eu comecei a desenhar. Eu desenhava e depois colocava uns escritos e títulos de duplo sentido. Quando eu fechei o disco (O Ciclo) resolvi dividir ele em cinco partes e brinquei com essa história das palavras. As músicas que entraram nesse disco não tinham muito a ver com o outro. No final tudo se encaixou.

Então todos os desenhos do encarte do Ciclo são seus? Você bolou tudo sozinho?

A arte eu fiz junto com os meninos do Transição Listrada que são de Fortaleza também e trabalham com a gente desde o começo, mas os desenhos são meus.

Quem escuta ambos os seus cds, nota que no segundo você fala bem menos e o tempo das músicas é menor também. O estilo mudou um pouco, mas permaneceu a ponto de você escutar e dizer: Isso é Cidadão Instigado. O fato do primeiro cd não ter sido tão bem aceito (e segundo eu li em algum lugar isso ter sido até motivo de você pensar em desistir da banda) influenciou nessa mudança?

O primeiro disco acabou virando um registro de tudo que eu fiz desde que comecei a compor minhas músicas. Passei 94 e 95 só criando. Em 96 eu montei a banda e só fui gravar em 2001 (acho). Quando o disco foi gravado eu já não agüentava mais nada. Não tive nem muita vontade de trabalhar no disco. Isso não quer dizer que eu não goste dele, mas fez parte de uma época que não me diz mais muito. A mudança do falado pro cantado foi muito pessoal. Eu aos poucos me sinto mais à vontade pra cantar. O Cidadão é a minha diversão. Se eu não tô gostando do rumo que as coisas estão tomando, eu vou e mudo. Então as mudanças foram naturais e não por não ter sido bem aceito. Eu que não aceitei mais muito.

Você disse que aos poucos se sente mais à vontade para cantar. No Método tufo, na musica "Apenas um incômodo" você fala que "Eu sei que sou meio empenado. Talvez até desafinado". Você se acha desafinado? E agora esta se sentindo mais à vontade com sua voz?

Eu tenho me sentido mais à vontade sim e até que tenho desafinado menos, mas continuo desafinando. Na real, hoje eu tento ser mais chapa das minhas imperfeições. Se erro, dou uma consertadinha daqui, outra dali e de alguma maneira chego num ponto que me agrada. Acho que tenho me aceitado mais.

Algumas pessoas dizem que “O Método tufo” é brega. Mas são apenas aquelas que conhecem a primeira e a última música do cd. Quem o ouve inteiro percebe que podem ser encontrados na realidade, muitos estilos ao longo de cada música. Dentro de uma mesma música você já experimenta muitas coisas. Otto em uma entrevista disse que não tem um estilo somente. Eu sinto isso no Cidadão também. Estaria certa?

Acho que sim. Na real, eu não sou de me apegar a rótulos. Gosto de música e não de estilos. Tento ver o que tem de bom em tudo que escuto. Na maioria das vezes gosto de escutar música como leigo, sem o ouvido estudioso de músico. Tenho vários amigos que não entendem algumas coisas que gosto, mas isso é natural da minha personalidade. Gosto de Hendrix da mesma maneira que de Bob Marley, de Roberto Carlos, The Cure...

Tem alguma banda que você escuta, mas pensa: “Esse cara eu tenho vergonha de ouvir”?

Não, porque eu não tenho. Gosto até de músicas do A-Ha, Araketu... (risos)

Muitas pessoas têm preconceito com muitos estilos musicais. Como o funk e o pagode, por exemplo.

Eu sou fã de funk carioca. Mas às vezes me dá bode ouvir jazz. Em outros momentos adoro jazz.

Atualmente você está viciado em algum cd e escuta ele direto? Diz aí um show que você foi e pensou: Caralho, eu quero ser músico e fazer isso.

Eu tenho escutado muitas coisas. Toda hora eu mudo. Tenho escutado meus discos do The cure. Músicas lentas sempre. Reggae toda hora. Um show? Titãs lançando o “Jesus não tem dentes…” em Fortaleza.

Você tocou com Otto no DVD Mtv Apresenta e vem acompanhando ele nos shows pelo Brasil. Você toca também com Vanessa da Mata. Além de ter feito participações nos cds de Los Hemanos e Nação Zumbi. Isso acaba influenciando o Cidadão Instigado? São músicos que você se identifica de alguma maneira?

Eu só toco com quem eu gosto. De alguma maneira eu acabo me influenciando quando participo do trabalho de alguém porque o mais importante pra mim, é conseguir colocar a minha guitarra da maneira que eu acredito sem interferir de maneira prejudicial no trabalho alheio. Não vou tocar com a Nação imitando o Lúcio. Nem dá... Covardia...

Vamos falar um pouco sobre o processo de composição. “O tempo” foi composta durante as gravações e nela você toca praticamente sozinho. Você tem alguma preferência para compor? Prefere estar sozinho?

Normalmente eu componho sozinho. Até porque quando eu escrevo algo é muito pessoal, daí faço a música pensando na letra. Gosto de fazer música com outras pessoas também, mas normalmente com quem tenho muita afinidade.

Quem escuta os seus cds nota que as músicas têm um cunho de autobiográficas. Como no caso, por exemplo, de “O silêncio na multidão” que fala sobre a depressão de se ficar sozinho numa cidade com as dimensões de São Paulo. Você foi pra lá com um amigo que logo depois desistiu e foi embora. Você também pensou em desistir nessa época? Como foi o processo de conhecer as pessoas envolvidas com música na cidade? Como foi ir conhecendo os músicos e começar a arrumar lugares para tocar e tal...

Nessa época (94), foi muito difícil pra mim. Eu ficava bolando pelo Bexiga e conhecia algumas pessoas que tocavam nuns barzinhos. Eu pensei diversas vezes em voltar, tanto que depois de um tempo eu mudei pro Rio, que também não foi muito bom, daí voltei pra Fortaleza e foi quando montei a banda. Aos poucos eu fui conhecendo umas pessoas em São Paulo. Vinha pra passar uns dias, voltava, dava uns meses estava em São Paulo novamente. Na homeopatia. Continua sendo.

Com que freqüência você volta a Fortaleza? É uma cidade que você gosta de visitar?

Fortaleza é minha cidade e eu sempre gostei muito de estar e ser de lá. Hoje em dia, pelo rumo que ela tomou, me deixou totalmente desiludido. O ruim é que sempre falo isso e não é conversa de quem tá fora. Desde que abriram as portas pro turismo lá, a cidade foi se afundado cada vez mais. Hoje é triste de ver. Não tem um lugar que seja seguro lá. Até sua casa ficou perigosa. Só os que têm muita grana e costas largas conseguem ter proteção. Pra mim é uma decepção. O turismo sexual, a pior arquitetura do mundo na minha cidade.

Lá você formou sua primeira banda, a Companhia Blue, que pelo nome parece ser completamente diferente do que você faz hoje no Cidadão. Você acha que evoluiu musicalmente ou apenas são estilos diferentes? Agora você faz o que realmente sempre quis fazer, por exemplo.

A Companhia Blue e o Cidadão são trabalhos completamente diferentes. Na Companhia eu era apenas guitarrista e o Júnior Boca que cantava. Até as músicas que eu fazia eram pensadas pra ele cantar, mas foi uma época muito legal, e era o que eu queria tocar. O Cidadão é bem mais pessoal. São minhas musicas. Eu canto. Eu escrevo. Então são momentos diferentes, cada um na sua importância.

“Os urubus só pensam em te comer” é a trilha sonora original de um curta-metragem homônimo de Vanessa Teixeira de Oliveira. Ela chegou para você, te mostrou o vídeo e você compôs ou você acompanhou todo o processo de realização do curta e foi compondo aos poucos?

A Vanessa me chamou pra fazer a trilha, e eu fiz toda em casa em um porta-estúdio de rolo. Toquei todos os instrumentos que na maioria eram teclados, coloquei umas guitarras. O nome do curta é esse. Daí quando decidi colocar a música pra banda tocar, eu completei a letra e coloquei o titulo nela.

O Cidadão Instigado já tocou no Sesc em São Paulo no Projeto Prata da Casa para o lançamento do “O Ciclo da Dê.cadência”. Lá esse movimento do Sesc rola de uma forma muito legal. Já em Recife e em Fortaleza, por exemplo, o Sesc não é tão forte e não faz tantos shows. O que você acha de projetos como esses que rolam no Sesc e também outros como os do Itaú Cultural?

Acho fundamental que existam lugares assim. É uma pena que isso não passe do circuito sudeste. Às vezes até tem em outros cantos, mas em menos quantidade. Só que mesmo aqui em São Paulo, não é tão fácil tocar nesses eventos, então quando acontece de você tocar é muito bom porque se recebe decente, tem um som legal...

A APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) divulgou na última segunda, dia 12, os melhores de 2005. Na categoria Música Popular você ganhou como melhor compositor. Já no VI Prêmio Uirapuru, da revista O Dilúvio, o Cidadão Instigado levou os prêmios de Melhor Música e de Melhor Álbum. Você acha que os prêmios que vem ganhando é como se fosse uma consolidação do seu trabalho? Uma espécie de reconhecimento uma vez que o Cidadão não é uma banda que toca na MTV e nas rádios?

Tenho ficado muito feliz com tudo que tem rolado em torno do nosso novo disco. Várias coisas boas estão acontecendo agora por causa dele. É um bom momento pra gente e estamos tentando aproveitar ao máximo, fechando shows e tentando chegar mais próximos uns dos outros em termos musicais e emocionais. O bom é que todas as coisas boas que estão vindo são naturais. Nunca precisei fazer uma música de determinada maneira pra agradar a pessoa que precisa ouvir. Tenho necessidade de criar música que seja verdadeira pra mim. E mentir não seria muito justo com minha pessoa e com os que estão ao meu redor.

Como é isso de agora ter um estúdio, o Totem? Pode-se dizer que agora você tem espaço para suas pirações?

Aqui é meu espaço de tudo. Gravamos, tomamos café no fim de tarde, às vezes tem churrasco, os amigos passando… dá nem vontade de sair.

(texto originalmente publicado no site O Dilúvio - http://www.odiluvio.com.br/)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Dado Villa-Lobos revela o que anda escutando

(O Povo - 11/03/2006, por: Natália Paiva)

OP - O que você tem ouvido ultimamente?
Dado - Um pouco de tudo: de Clara Nunes a Radiohead, Beck, Los Hermanos (4) e Cidadão Instigado.

Capítulo 2 – O método cheio de experiências

(Por: Maria Helena Silveira · Recife, PE, 9/7/2006)

O “Cidadão Instigado e o método tufo de experiências” está ali, olhando para o leitor-ouvinte, pronto para ser lido e escutado. Em meio ao silêncio do quarto, ele tem suas dúvidas se está preparado para seguir com aquilo. Foram tantas sensações e pensamentos que o Ciclo causou que ele está confuso com o que deve fazer. Então, acende um cigarro, pega mais um café e segue adiante.

O encarte agora tem a forma mais tradicional e linear, mas isso não significa que seu conteúdo o seja também. O leitor-ouvinte finalmente liga o som, abre o mini-livro e sorri. Os primeiros acordes de “Te encontrar logo...” são suficientes para ele ter a certeza de que fez a escolha certa.

“Acho que estou te esperando / O que talvez você já saiba / Você pode estar certa / Talvez não vale a pena dizer nada”. O órgão de Daniel Ganja Man ajuda a dar esse tom melancólico e até meio brega da primeira história de amor do Método tufo.

Do lado direito tem um cara lendo o livro “Os urubus só pensam em te comer”. Mas ele poderia estar também vendo o vídeo, já que a música é a trilha sonora original do curta homônimo de Vanessa Teixeira.

Catatau então vem com aquela voz e afirma: “Todas as vacas estão velhas / Todas as vacas estão quase lá / Todas as vacas estão loucas / E abatidas no seu leito de morte”. O leitor-ouvinte concorda e em meio ao psicodélico ritmo gagueja com o narrador: “Pó-pois já é tarde e os urubus só pensam em te comer”. E lá vem ela, a vaca, para encerrar sua história com um fundo musical instrumental indescritível.

Ele então dá um gole no café e vira a página para conhecer a história de “O pobre dos dentes de ouro”. Maurício Takara com sua zabumba, André Malê com seu elu, juntamente com os outros Cidadãos Instigados fazem surgir um ritmo meio caribenho que invade o quarto e, se o leitor-ouvinte soubesse, levantaria para dançar. Mas logo chega Marcos Axé com o djembe e os efeitos fazendo tudo mudar. A faixa acaba completamente diferente de como começou.

Ali no cantinho está ele, óculos escuros, cabelos grandes, de perfil. Um desses transeuntes que passaram pelo narrador durante essa meia hora em que ele esteve parado num cruzamento da paulicéia desvairada “pensando / simplesmente pensando”. Catatau nesse devaneio conta sobre “O silêncio na multidão” em meio a uma melodia que oscila de acordo com o que vem sendo contado.

E lá está ele, de volta, o Zé Doidim, no cruzamento da Brigadeiro Luiz Antônio com Avenida Paulista, dessa vez sendo um personagem comum e não o principal. Aos três minutos o narrador se cala e deixa os instrumentos falarem um pouco. O leitor-ouvinte então pensa que se trata dos minutos finais da história. Engano. Aos cinco minutos Catatau volta para concluir a história que só acaba aos sete.

O leitor-ouvinte chegou a metade do encarte e um desenho lhe mostra o “Tufo experimentos”. Como o cd está rolando direto, a introdução de “Calma!” é pouco tempo para se entender do que se trata. Na dúvida entre acompanhar o livro junto com o áudio ou dar uma pausa no som, ele opta pela primeira opção pensando em voltar ao meio depois que chegar ao fim.

Catatau entre apitos chega contando que simplesmente precisa de um copo de água com açúcar para ficar tranqüilo e Clayton Martin diz “Caaaaalma garotãããão” e manda trazerem esse copo, que na verdade vira um balde d’água, para que o leitor-ouvinte capte com seus ouvidos o que sua mente rapidamente imagina.

Mais calmo, Catatau segue com sua narração e começa a contar a vida de “O pinto de peitos” que fala sobre um pinto que tem peitos e um bico preto. E as pessoas só conseguem ver o seu bico preto por ser um defeito, já que “todo bico é amarelo queimado”. Mas “Certas coisas acontecem na vida / Não para assustar / Mas sim, para mudar / O entendimento sobre as coisas absolutas”. Para o nosso bom leitor-ouvinte, meia palavra já basta.

Mudando de posição porque as costas já lhe doem, o leitor-ouvinte observa que no alto das duas páginas onde estão quatro histórias, ela aparece: uma sereia, que na verdade é uma constelação, em meio às estrelas que o cara ali do canto esquerdo, bem pequeno, está observando.

A autobiografia do autor aparece na faixa sete e ele chega para contar que é “Apenas um incômodo”. Cinco minutos é o tempo que Catatau precisa para dizer o porque de tal afirmação com a ajuda de um reggae daquele jeito que o Cidadão Instigado faz. O que não significa obviamente que seja parecido com os do áudio do mini-livro anterior.

Talvez o Malê que Catatau está apresentando seja o mesmo André Malê que apareceu na história três com seu elu. Talvez, o leitor-ouvinte pensa. O fato é que sendo ou não, “Chora, Malê” é a oitava história e a maneira leve com a qual o autor descreve esse personagem torna-se um dos pontos mais atrativos desse mini-livro. “Traga uma mulher, uma cachaça e um violão / Escute o toque do tambor / Para entender o seu coração”.

Virando mais uma vez a página, o leitor-ouvinte então chega a penúltima história e, portanto, quase ao final. Logo ali, no cantinho direito da página, está o cara que teve uma “Noite daquelas”. Suas lágrimas e a maneira como ele segura seu violão não negam tal fato.

A brincadeira com as palavras volta nessa história. E de um jeito instigado o “Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, bonc bonc” torna-se onomatopéia dos diálogos inusitados dos personagens. Catatau conta como a solidão pode fazer com que o sujeito tente aliviar a dor no coração gritando mesmo que ninguém o ouça. O autor conta que “Eu estou meio opaco / E os seres opacos precisam de qualquer coisa para se iludir”, o que justifica a tentativa em falar com as estrelas antes da chegada de uns amigos para então ele perceber que na verdade só queria conversar com alguém.

A sombra de um banco causada por uma parte do sistema solar. Esse é o cenário da última história desse método cheio de experiências. “O tempo” chega para encerrar de uma maneira calma e melancólica, ou seja, Catatau em sua essência.

O leitor-ouvinte pega o maço enquanto escuta os últimos acordes e percebe que não tem mais cigarros. Olha para o som e lá estão os 51:04. Ainda meio atordoado com o ciclo que o fez iniciar um tufo de experiências, coloca seu chinelo e vai à padaria. Ele ainda tem um Tufo experimentos para compreender.

(texto originalmente publicado no site O Dilúvio - www.odiluvio.com.br)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Entrevista - Dustan Gallas

(Por: Bruno Natal, OESQUEMA/, segunda-feira, 21 de setembro, 2009)

Recentemente o nome Dustan Gallas apareceu relacionado a dois dos mais legais discos brasileros desse ano. O sujeito gravou com o Cidadão Insigado em “Uhuuu!” e faz parte da banda de Lucas Santtana nos show do disco “Sem Nostalgia”.

Ninguém melhor pra explicar quem é Dustan Gallas do que ele próprio.

URBe - Apresente-se: instrumento, de onde você é, idade, com quem já tocou, principais trabalhos e sua formação.

Dustan Gallas - Eu sou guitarrista, nasci em Parnaíba, litoral do Piauí e cresci em Fortaleza. Eu aproveitei uma parte do tempo que eu passei estudando em universidades pra fazer umas aulas de outras coisas, fazendo umas aulas de piano e bateria, comprei tambem um trompete e um bongô, nessa época eu pensava que isso ia me fazer melhor guitarrista, mas acabou que eu aprendi alguma coisa neles mesmos. Acho que esse é um bom termo… Eu não diria que eu sei tocar baixo, por exemplo mas eu sei usá-lo.

Tenho 37 anos, e passei uns 10 pra lá e pra cá, estudando nesses lugares: America Institute of Music (Viena-Áustria), Hochschule für Muzik und Tanz (Graz-Áustria), Northern Illinois University (Illinois-usa), Rotterdam Conservatorium (Rotterdam-Holanda). E saí variando curso… Fiz de guitarra jazz, violão tango, produção musical, e até pintura

Nesse vai e vem de ir estudar e voltar ,comecei a me envolver com produção e trabalhei em alguns discos ainda em Fortaleza: Realejo Quartet, Karine Alexandrino, Eddy de Clercq, Alcalina, Forma Noise, Felipe Cazaux, Samba Hemp Club, Pádua Pires e fiz também umas trilhas pra espetáculo de dança, teatro, desfile, cinema, tal e tal.

URBe - De onde vem a sua relação com o Cidadão Insigado?

Dustan Gallas - A gente é “de época”… Hehe… Sou amigo de infância do Rian, e vizinho do Fernando [Catatau] na adolescência, quando conheci o Regis também, quando começamos a tocar e as nossas bandas ficavam tocando juntas. Depois que elas se desfizeram, (quando uns foram estudar, outros formar outras coisas) o Fernando começou a conceber o Cidadão.

Se ouvia muita coisa diferente o Régis era rock inglês, o Rian muita coisa brasileira, e eu e o Fernando mais mistureba, até que eu fui pra um lado de só ouvir jazz, pra tentar entender, e o Fernando mergulhou nos Sérgio Ricardo, Tom Zé, Alceu Valença, o som da primeira metade dos 70 deles (e as trilhas deles da época). Quando voltei pra Fortaleza em 97/98, a banda ja rolava e eu tocava umas guitarras em participações em shows. Pouco depois eu entrei pra banda, tocando caixa e prato e umas panelas, e fiquei até 2002 por aí, quando viajei de novo. Gravei o primeiro EP em Fortaleza e o “Ciclo da Decadência” aqui em São Paulo.

URBe - Qual foi o seu papel e participação em “Uhuuu!”?

Dustan Gallas - Foi muito legal. Porque vim morar em São Paulo no meio do ano passado com a intenção de ficar um ano, essencialmente, próximo dos amigos. E tem sido massa, porque eu tenho não só estado perto, como tocando junto também.

No fim do ano passado o Fernando [Catatau] me convocou pra fazer os teclados, tanto pra minimizar o uso das bases como pra tocar mais coisa no material novo do Cidadão. Aí, o processo na hora de gravar foi o de captar o som do quarteto, como é o formato dos shows há alguns anos, e depois eu entrei como, digamos, um olhar “de fora”, editando umas músicas e pondo teclados adicionais, ajudando na mixagem e nas decisões das coisas, já que o projeto envolvia muita coisa: metais, muitos e muitos tracks nas músicas, etc.

É engraçado como o aspecto multirão tende, às vezes, a confundir o objetivo, mas nesse caso, muito provavelmente pela afinidade da galera, o multirão virou um trunfo e fez com que se atingisse um resultado pelo menos satisfatório pra todos nós seis.

URBe - E de onde você conhece o Lucas Santtana?

Dustan Gallas - Eu conheci o Lucas vendo shows da banda, ano passado, porque o Rian e o Regis tocam com ele, aí fui num show no Studio SP. Na verdade eu lembrava dele de ver clipe anos atrás de “De coletivo ou de metrô”, que achava massa, mas não o conhecia pessoalmente.

URBe - Como foi entrar na banda do Lucas para tocar as músicas do “Sem Nostalgia”, um disco feito inteiramente com violão?

Dustan Gallas - Esse ano ele me convidou pro projeto “Trilhando” do SESC (a edição com Bruno Barreto), com a Gal Costa cantando, isso foi no início do ano quando ele tinha acabado de gravar o disco novo. Na verdade, antes ainda mesmo desse projeto rolar, ele me convidou pra integrar a banda do show desse mesmo disco. Adorei o convite, porque o que tinha visto do show anterior dele era muito bom. Aí ele enviou o disco novo, e eu fiquei mais contente ainda, porque o disco é simplesmente sensacional. E tem isso do disco ter um monte de violão e ao mesmo tempo a maneira que ele arrumou de transportar o disco pra o formato da banda, ta dando bem certo, no meu conceito. O “tom” das composições tá preservado, deu certo.

URBe - Do que mais você participou ou está participando?

Dustan Gallas -Teve essa experiência incrível de tocar com a Gal nesse projeto com o Lucas (o que me rendeu uma demissão da banda do Otto), eu participo da banda do Edgard Scandurra, que foi formada pra gravação do DVD dele. Gravamos em Maio e agora tá em processo de edição e mixagem. Inclusive gravamos uma música ano passado que ficou bem especial (”Não precisa me amar”, ta no myspace dele).

Toco com o Júpiter Maça e estamos entrando numa fase massa com músicas novas, e que uma primeira já ganhou clipe que inclusive está indicado ao VMB desse ano. Tô produzindo com o Boca (Otto, Instituto) o disco da Barbara Eugênia. Toco com a Juliana R. Tô tocando na banda e gravando no disco novo da Karina Buhr. Terminando discos de duas bandas de Fortaleza, O Garfo e Murano….e mais dois projetos caseiros, o Chic Shit e o Eles Cantam Mal.

Tem ainda um disco que fiz há anos, e que esta sendo relançado do Realejo Quartet, tem o Psycho Jazz, um combo que o Boca encabeça, hoje mesmo a gente tava discutindo o repertório pra próxima temporada, que deve começar agora em outubro no Studio SP. Outro que tá nos ensaios ainda, mas já promete virar um projeto interessante, é o disco do Tupiniquin, que tô produzindo com o Rian.

URBe - Quais bandas tem voado abaixo do radar e devem surgir logo, logo?

Dustan Gallas - Barbara Eugênia, Karina Buhr, Juliana R., O Garfo, Mr. Spaceman, Tupiniquin, pra mencionar alguns… hahahahaha!

Tem um menino de Fortaleza que eu ouço quase diariamente e por mim tava todo mundo falando dele. Chama The Amazing Broken Man.

Caetano avalia a música brasileira atual

(Rolling Stone, 29 de agosto de 2007, 12h14. Por Marcus Preto)


"(...) Há muita gente. Você ouve o garoto do Cidadão Instigado e vê que ele pensa coisas interessantes de um outro ponto de vista. Tem uma ironia interessante, e um comprometimento com o som muito responsável também."

-Caetano Veloso

sábado, 8 de maio de 2010

Fotos do Cidadão no roNca roNca - 27/04/10

Fernando Catatau
Fernando Catatau
Dustan Gallas e Regis Damasceno
Fernando Catatau e Rian Batista
Cidadão Instigado
Fernando Catatau
Rian Batista e Clayton Martim

(por: Oifm)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Cidadão Instigado – “E o Método Tufo de Experiências” (Slag Records)

(por: http://www.nemo.com.br)

Existem determinados sujeitos que são inquietos e instigantes em sua essência. Entre tantas alternativas de vida, alguns deles resolvem mergulhar no mundo da música e costumam presentear os ouvintes com boas esquisitices. O cearense Fernando Catatau é um desses caras. Desde que lançou os primeiros trabalhos de sua banda Cidadão Instigado ele corrompe as regrinhas da música brasileira. Na verdade nem se importa com elas. Depois de anos tocando alcançou o status de um dos músicos mais importantes e criativos dessa nossa música, pelo menos a do universo que mais importa. Em 2005, foi considerado pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo como o melhor compositor brasileiro do ano.

Responsável pela composição, produção, arranjos, voz e diversos instrumentos, Catatau acaba sendo a cara da banda, que criou em 1994 ainda em Fortaleza. Catatau já tocou ou toca com gente como Otto, Vanessa da Mata, Zeca Baleiro, Nação Zumbi, entre outros, mas é no seu próprio trabalho que mostra sua enorme capacidade de criação. Com o Cidadão Instigado (formado por Régis Damasceno, Rian Batista, Clayton Martin e convidados especiais, como Daniel Ganjaman, Maurício Takara e Izaar, entre outros), solta esse petardo que vem tirando do prumo quem já estava se contentando com as repetições, mesmo as mais recentes. “Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências” altera os sentidos porque é simples. Desnorteia por utilizar elementos de nosso cotidiano, que mal utilizados costumam ser rejeitados, desprezados ou esquecidos. Elementos que aparecem nas letras, melodias, timbres, instrumentos, forma de cantar e que se juntam a elementos mais modernos, como sintetizadores, bateria eletrônica e efeitos.

Ao contrário do quem vem sendo alardeado, não é apenas um disco de música brega no novo milênio. O trabalho da Cidadão Instigado não é tão facilmente encaixável em um tipo de rótulo. Como no primeiro disco, Catatau e a banda subvertem e jogam para o alto qualquer tipo de tentativa de formatar sua música em alguma prateleira. Passeiam por sons psicodélicos, batidas eletrônicas, sonoridades setentistas, ritmos nordestinos e abrem a torneira de um universo particular para experimentar e contar histórias.

Há música brega na música que abre o disco, a belíssima “Te Encontra Logo” e na última “O Tempo”. Um brega moderno que traz uma conhecida sonoridade das mesas de bares. Dor de cotovelo embalada por um ritmo baladeiro com teclados, trechos falados, corinho e letras que falam de romances melodramáticos. “Estou morrendo e tenho medo de só pensar em você/ Te encontro logo a distância/ Antes dela te dizer que já é tarde demais”, na primeira, ou “mas o tempo é um amigo precioso/ que faz questão de jogar fora/ aquela mágoa vencida que ficou/ sofro por não ter pensado em te dar um desconto/ pus o rancor pra cuidar de tudo/ e vi que a vida mudou um segundo/ às vezes choro/ pois sei que não posso deixar que o passado invada meu mundo/ lembrei do perdão e vi nós dois construindo um futuro.” Preciosidade da última canção do disco.

Porém, não é só isso. Como definir “Os Urubus só Pensam em te Comer”, uma excêntrica música retirada da trilha sonora de um curta homônimo. Experimentalismo em cima de uma batida simples, teclados tortos e uma letra metafórica sobre vacas e urubus. Em “O Pobre dos Dentes de Ouro” uma levada mais latina que logo se transforma num samba de terreiro e muda completamente virando uma experimentação sonora com guitarras. Tudo para contar a história de um sujeito pobre que sonha com dentes de ouro para ficar lindo. A viagem em que mostra personagens comuns, mas que parecem invisíveis prossegue em “Silêncio na Multidão”. E ai ele mostra a estranheza de um lugar como São Paulo, que acolhe e assusta. A realidade da cidade grande, cruel e solitária. “Eu vejo as pessoas que passam por mim/ que falam, que ralam, que gritam/ em harmonia e solidão/ dói no coração ver meu povo silencioso”. Como se quisesse acordar quem o cerca do conformismo e passividade reinante. E segue ainda com o rock experimental alucinado “Calma!”, a estranha “O Pinto de Peitos”, o meio reggae-rock enviesado “Apenas um Incômodo”, que dá um recado nada conformado de um discriminado (nordestino em São Paulo? Cantor desafinado?), a bela “Chora, Malê” e a esquizofrênica a la Zumbi do Mato “Noite Daquelas”.

Catatau e sua trupe passeiam por sons experimentais e ousados. Encontram uma forma inteligente de falar de personagens comuns, problemas sociais, preconceito e de um universo simples, até cotidiano, mas que poucas vezes foi apresentado ao mesmo tempo de forma tão criativa e original. Criam sonoridades interessantes e desconcertantes, que aliadas às letras ousadas e criativas resultam nessa pequena obra prima.

Entrevista: Fernando Catatau, do Cidadão Instigado

Líder da banda conta como começou na música e comenta o disco novo, Uhuuu!

(Por: Mariana Morais, segunda-feira, 07 dezembro, 2009 - 08h00, Brasil / Magazine)

Fernando Catatau é guitarrista, cantor e compositor, fã de Robert Smith (The Cure), Santana, Jimmy Hendrix e David Gilmour (Pink Floyd), faz rock´n roll psicodélico no Brasil cheio de originalidade. Vira e mexe ainda deixa escapar uma pegada romântica nas letras. Fernando Catatau é um turbilhão.

Líder da banda Cidadão Instigado desde 1996, este cearense de Fortaleza acaba de alçar novo voo ao lado de seus companheiros Regis Damasceno (guitarra, guitarra sintetizada e vocal), Rian Batista (baixo e vocal), Clayton Martin (bateria e programações), Dustan Gallas (teclado e vocal) e Kalil Alaia (técnico de som e efeitos). Trata-se de Uhuuu!, um disco pra cima, otimista, cheio de participações especiais - Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra, Hugo Hori, Karina Buhr, só para citar alguns. Tanta alegria é provável reflexo de um bom momento da vida de Catatau. "Cada um (disco) mostra um tempo que eu estava vivendo. É muito pessoal, acho que é uma continuidade da minha vida", conta.

Para quem não lembra, o primeiro trabalho do Cidadão foi O Ciclo da De.cadência, de 2002. Depois, veio Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências, em 2005 e, agora em 2009, o Uhuuu!, que foi um dos vencedores do Prêmio Pixinguinha.

Antes do Cidadão Instigado, Fernando Catatau teve duas bandas (Ultra-Leve e Companhia Blue) em que tocava com amigos. Quando se profissionalizou, fez parte das bandas de Vanessa da Matta, Otto e Zeca Baleiro. Avesso a rótulos, o cara gosta mesmo é de rock e de cantar a poesia que escreve, sem essa de "ser experimental" ou "não ser experimental". Não segue padrões, é intenso, sensível e, acima de tudo, ele mesmo. Em entrevista ao ObaOba, ele conta um pouco de suas origens, do começo do Cidadão Instigado e do trabalho mais recente, Uhuuu!.

Como você começou a tocar?

Comecei a tocar aos 13 anos, gostava de rock e tinha umas aulas de guitarra que logo larguei para surfar. Só em 1990, voltei a ter contato com música, quando vi um amigo tocando. Montamos uma banda de nome "Companhia Blue" e foi assim - com os meus amigos, aprendi um monte de coisa que sei hoje. Em 2000, comecei a tocar profissionalmente quando o Otto me chamou pra tocar com ele.

Você lembra qual foi o primeiro disco que teve?

Meus primeiros discos foram da Eliane (a rainha do forró), Alípio Martins, Carlos André e um do Roberto Carlos, que tinha a música "A Guerra dos Meninos". Só aos 13 anos que eu tive meu primeiro contato com rock: foi quando ganhei uma fita do Pink Floyd, um grande marco na minha vida.

Quando você descobriu que podia e queria ser músico profissional?

Eu sempre quis viver de música, ficava sonhando em poder fazer vários shows com uma banda. Minha vida profissional se encaminhou naturalmente, já tive vários momentos de dúvidas sobre o que eu queria fazer, já cheguei ao ponto de quase desistir de tocar para fazer outra coisa, mas continuo tocando até hoje.

O Cidadão Instigado existe há 10 anos. Como surgiu a banda?

Em 94 eu comecei a compor as primeiras músicas do Cidadão e só em 96 montei a banda. Comecei a compor baseado nas coisas que eu estava vivendo nessa época, que foi quando vim para São Paulo tentar a vida com música.

Como você chegou à formação atual do Cidadão Instigado?

A formação atual do Cidadão já tem uns 6 anos. Acho que fechamos essa formação pouco antes das gravações do Método Túfo... e estamos até hoje. O bom de tocar junto esse tempo todo é que fica fácil de entender o pensamento um do outro.

Os três discos da banda são bem diferentes entre si, qual é a principal diferença que você sente entre os três e, especificamente, no Uhuuu!?

Cada um mostra um tempo que eu estava vivendo. É muito pessoal, acho que é uma continuidade da minha vida. O Ciclo da De.cadência é bem carregado de informações, o Método Túfo... é uma busca minha pela simplicidade, uma tentativa de tirar todo o excesso que tinha no anterior. Já o Uhuuu! é como se tivesse equalizado os dois lados: tem canções, mas tem partes mais psicodélicas também.

Qual o conceito desse disco?

Eu vou compondo, não tenho um conceito fechado... Fui juntando algumas músicas que já tinha e compondo outras. No final ficou assim.

O Cidadão Instigado põe surpresas a cada disco. O que você colocou de novo nesse disco?

Para mim é tudo tão pessoal que não percebo se tem algo de novo. Vejo o Uhuuu! como uma continuidade do nosso trabalho. Fiquei muito feliz com o resultado final, soa como a banda é ao vivo.

Até que ponto você acha que é possível fazer música experimental e ser popular?

Acredito que o "ser popular" venha de algo que cai no gosto do povo. Se uma música, seja ela de qualquer estilo, consegue chegar às pessoas em geral e essas pessoas passam a gostar, vira popular. O lance é que é difícil o acesso ao conhecimento, música é emoção e cada pessoa se emociona de uma maneira.

As letras são muito fortes no trabalho do Cidadão Instigado. O que te inspira a escrever e como você alia isso às melodias?

O que me inspira para escrever é minha vida e minhas experiências. Vejo o que a letra pede e faço a melodia que se encaixe...

Tenho a sensação que você "vomita" os discos. A composição é muito visceral. É isso mesmo ou você planeja tudo?

Tenho vários momentos de composição. Às vezes estou sem fazer nada e sai uma música em um minuto, mas já cheguei a ficar 8 anos sem conseguir fechar uma canção... Varia muito, dependendo do assunto. Mas, no geral, acho que planejo bastante.

Podemos chamar o som do Cidadão de um rock progressivo misturado com brega?

O som do Cidadão é um rock de vários segmentos. Se misturo um pouco de regionalismo é porque tenho isso na minha veia, mas a veia principal é o rock mesmo. Já o brega, para mim não é brega - é apenas o meu lado romântico.

Seu trabalho como guitarrista de outros artistas (como Vanessa da Mata e Otto) te influencia de alguma maneira?

Me influencia totalmente! A cada trabalho que eu faço, mudo um pouco meu jeito de tocar. Você tem que ir se adaptando aos trabalhos. No Cidadão, não toco do mesmo jeito que toco com o Otto mas, ao mesmo tempo, tenho meu jeito de tocar que acaba ficando impresso de alguma maneira em cada trabalho. O grande lance é você se colocar, saber que de vez em quando é preciso tocar menos para poder ser realmente percebido.

Eu li que você gosta de música triste e que música feliz dá agonia. É verdade?

O que eu gosto são de músicas com harmonias menores, não que eu goste de tristeza... É uma questão musical. Tem as que me emocionam mais, mas é uma coisa com o sentimento musical mesmo...

O que você anda ouvindo?

O que eu ouço sempre: Raul Seixas, Black Sabbath, Iron Maiden...

Com o disco lançado, o que vocês vão fazer agora?

Espero que a gente consiga fazer muitos shows e se divertir muito!

Mais uma foto

(divulgação)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cidadão Instigado lançando o UHUUU! ao vivo no Recife



Eis aqui o registro ao vivo do show de lançamento do terceiro disco da banda Cidadão Instigado no Recife. Trata-se de um show do Cidadão Instigado no Projeto Observa e Toca, na Torre Malakoff. Peguei esse link com o pessoal do Lumo Coletivo e foi transmitido ao vivo pela radio Fora do Eixo como vários outros shows deste projeto. O setlist do show foi basicamente o terceiro disco da banda, finalizando com clássicos do método tufo...

domingo, 2 de maio de 2010

Cidadão Independente

Guitarrista requisitado, Fernando Catatau esquece de tudo quando se trata de seu Cidadão Instigado


Por LEONARDO DIAS PEREIRA (09/2009)

(Cidadão Instigado, com Fernando Catatau à frente, foto por ROBERT ASTLEY SPARKE)

Assim que saltou do táxi, Fernando Catatau me cumprimentou e se desculpou pelo ligeiro atraso naquele que era o último compromisso de seu dia - totalmente consumido pelo último ensaio na banda do músico Otto, um dos vários para os quais ele empresta a sua guitarra virtuosa (Vanessa da Mata e Instituto são alguns dos outros). Mesmo preocupado em agilizar suas malas e todas as coisas para a viagem que faria com o pernambucano no dia posterior numa turnê pelos Estados Unidos, o assunto em pauta envolvia seu principal cartão de visitas: o Cidadão Instigado, banda liderada por ele e composta ainda por Régis Damasceno (guitarra e vocal), Rian Batista (baixo e vocal), Clayton Martin (bateria) e Kalil Alaia (engenheiro de som e responsável pelos barulhinhos eletrônicos e efeitos nos shows).

"Eu toco em vários projetos e com vários artistas, mas a minha prioridade sempre vai ser a banda. São quase mais de dez anos e é nela que eu dirijo a minha criatividade", diz ele. Em 2005 o álbum Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências, segundo da banda, impressionou por sua originalidade, colocando no mesmo caldeirão eletrônica, indie rock e pitadas de música brega - trinca evidenciada numa rápida zapeada nos discos empilhados na beirada da sala de Catatau, de artistas como Kraftwerk, Jesus & Mary Chain e Genival Santos. Aliás, "brega" é um termo que ele considera como uma maneira preguiçosa de classifi car sua arte. "O pessoal se apegou àquelas duas músicas do disco ['Te Encontra Logo' e 'O Tempo'] e fica repetindo isso, que tem música brega e tal. É música romântica apenas. Se fosse assim, a gente teria que dizer que 'Changes' do Black Sabbath, também é música brega."

Depois de quatro anos de expectativa, a banda finalmente lança agora, graças ao Prêmio Pixinguinha patrocinado pela Funarte vencido por eles, Uhuuu! "A gente costuma falar isso entre a gente", despista Catatau, mas bem que o título poderia simbolizar o alívio de um apuro passado durante as gravações: "Com a verba do projeto, resolvemos fazer algo mais caprichado e gravamos num gravador analógico, com fita de rolo e tudo o mais. Mas perdemos toda a primeira etapa por conta de um problema no gravador", revela. O prejuízo só não foi maior porque boa parte das novas músicas já vinham sendo tocadas nas apresentações e o jeito "foi começar tudo de novo", diz Catatau, com toda a sua simplicidade.

As composições de Uhuuu! apresentam uma faceta mais acessível, quase pop, da banda, com músicas de refrãos grudentos, como de "Escolher pra Quê" e "Como as Luzes". "Não sei se estamos tão mais acessíveis. Talvez o que tenha contribuído para isso seja o fato de eu estar cantando mais neste álbum, já que no anterior era quase tudo meio que falado." Para quem foi aconselhado a parar de cantar na primeira apresentação, até que Fernando Catatau chegou bem longe. "Terminamos o show e um cara veio falar que o som era demais, mas que precisávamos de um vocalista", se diverte. Quando retornar da turnê com Otto, a banda pretende excursionar para divulgar Uhuuu! Mas, pra quem pensa que os festivais independentes serão o foco, o Cidadão mostra seu lado indignado: "Acho esses festivais e a entidade que os organiza [Abrafin] uma máfia. São sempre as mesmas bandas e toda vez que nos chamam é pra fazer show quase de graça. Não tenho mais idade pra desvalorizar a minha música. Até brincamos entre a gente que vamos fazer a Abramim - Associação Brasileira dos Músicos Independentes".