quarta-feira, 21 de abril de 2010

EI, CATATAU!

(entrevista publicada originalmente no site da revista Trip em 27.01.2009, por: Ronaldo Bressane)



(Catatau sem barba no passaporte para não aterrorizar na alfândega)

“Aos seus olhos eu sou apenas um incômodo que veio do nada para empestar o mundo.” Assim Fernando Catatau, 37, se apresentava em O método tufo de experiências, seu premiado álbum de 2006, considerado o título do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte – e que colocou o guitarrista, compositor, produtor e cantor cearense no centro da cena musical brasileira. Perto de lançar o terceiro trabalho, o líder do Cidadão Instigado segue o mesmo incômodo – ou quase. “Sou um libriano obsessivo: fico totalmente focado num negócio, mas daí depois deixo pra lá. E nunca consigo decidir nada”, define-se, ecoando a característica de um dos personagens recorrentes de suas canções – o Zé Doidim.

Enquanto bebia um café fraco na Livraria da Vila, num intervalo entre a gravação do novo Cidadão Instigado e do próximo álbum de Arnaldo Antunes, que produz, Catatau filosofava. “Todo ser humano coloca máscaras. O El Cabrone, por exemplo, é um personagem meu que é caçador do Zé Doidim – mas os dois são faces da mesma personalidade. Todo ser humano é duplo”, avisa com modos tímidos o magrelo barbudo de feições árabes, tererês presos nos cabelos pelos ombros. Um homem-bomba em potencial, claro. E, esses personagens, como surgem? “Eu desenho que só, entendeu. Daí saem essas figuras, como o Pinto de Peitos – que as pessoas não acham estranho ter peitos, e sim ter o bico escuro. No próximo disco vai ter uma música sobre umas ovelhinhas que vão pulando uma cerca, mas não sabem que tem um abismo do outro lado... até que viram uma montanha de ovelhas: elas apodrecem e o mundo passa a ser dos tapurus, aquele verme, saca.”

O surrealismo é uma face natural da realidade para nosso Zé Doidim. Ele morre de medo de fantasma. “Já ouvi muito espírito vir falar comigo. Teve uma época que eu fiquei noiado com essas coisas. Acho que tenho sensibilidade para ouvir essas coisas. Uma vez viajei com DJ Dolores, e eu não queria entrar no nosso hotel porque estava cheio de mal-assombro. Era Brixton [Inglaterra], uma cidade cheia de espírito. Acredito mesmo nessas coisas. Sempre senti muito essas presenças. Escutava amigos me chamando... E amigos vivos! Mas nunca quis saber de trabalhar a mediunidade. Dizia pra mim: ‘Deixe pra lá!’...”

E, esse lado obsessivo, como é que funciona? “Ah, quando eu surfava, ia à praia às 6h e só saía às 19h. A mesma coisa com fotografia. Andava de skate, resolvi fotografar, comprei uma Pentax, um livrão grosso de fotografia, decorei todas as aberturas possíveis. Outra hora quis ser cozinheiro, só fazia cozinhar. Agora, eu tenho essa coisa de colecionar instrumentos...”, confessa o proprietário de, no momento, uma Hofner semi-acústica, uma Giannini craviola, uma Silvertone 1452, uma Electra, uma Finch Flying V... entre diversas outras. Em busca do timbre perfeito, Catatau não economiza com pedais, mesas de som, gravadores de rolo, baixos, teclados: “Eu tô sempre atrás de um cacareco”.

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