domingo, 25 de abril de 2010

Cidadão Instigado

(Portal Coquetel Molotov Por: Ana Garcia, 04.03.2006)

“Desde o último disco, Ciclo da Dê.cadência (Instituto/YBrazil), eu praticamente parei o Cidadão Instigado”, conta Fernando Catatau. “Eu meio que me abusei de tudo, não estava mais a fim de fazer aquilo, até pensei em mudar o nome da banda”.
Mesmo? Para qual?
“Eu ia usar o meu nome. Foi meio... Acabei que cheguei num consenso comigo mesmo e achei legal. Continuei o nome Cidadão Instigado e mudei a forma de criar músicas, achei um caminho”.

A QUINTA-FEIRA no Milo Garage, em São Paulo, normalmente é concorrida e o lugar fica tão cheio que é comum ver os atrasados do lado de fora, barrados na porta, esperando que alguém resolva sair para que possam, enfim, entrar. Já ciente da fama do local, cheguei cedo e garanti pelo menos a entrada. E nessa noite, o diminuto espaço estava mais apertado do que nunca. A chuva havia inundado o bar e, portanto, as pessoas se acumulavam no pequeno salão e se espremiam contra as grades para pegar uma bebida na piscina que um dia fora o bar. Mas você sabe que a gente ignora tudo isso quando o som é de primeira. E o dessa noite foi da melhor qualidade. Fernando Catatau trouxe a formação completa para o lançamento do Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências (Slag): ele na guitarra; Régis Damasceno no violão, guitarra e teclados; Rian Batista no baixo; Clayton Martin na bateria; e a ocasional participação de Thomas Rohrer na rabeca. Músicos de primeira categoria para interpretar as criações de Catatau. A química entre a banda é impressionante, o que torna tudo mais superlativo ao vivo. A proficiência de todos em seus respectivos instrumentos e o entrosamento entre eles ajuda a destacar ainda mais as qualidades da música que é tocada. E tudo isso é fundamental para as canções da banda, porque emoção é o que conecta os músicos com a platéia e é o que conduz o som.

Tudo isso fica ainda mais explícito na figura do líder da banda: o cearense Fernando Catatau. Baseando o repertório quase que inteiramente nas composições do segundo disco, o guitarrista consegue transformar sua apresentação numa experiência catártica. De fato, ele mergulhou completamente no brega e busca nessa música de AM – que dominava, durante minha infância, a cozinha da minha casa, e provavelmente a da casa dele também – o expurgo para as dores do coração. É tocante assistir ele interpretando suas músicas ao vivo. O rapaz parece sentir a dor que canta em cada célula do corpo. Cada nota emitida por sua guitarra me atingiu como um lamento, me fazendo divagar sobre minhas próprias dores. “Ô cabra pra sofrer!”, gritavam da platéia. Um verdadeiro expurgo emocional. Sessão de terapia perdia. Claro que não foi assim a noite inteira. Se tivesse sido, eu estaria chorando minhas mágoas até agora. Quando a banda resolve explorar fronteiras musicais, ela o faz com propriedade. Uma levada de guitarrada se alterna com uma batida de hip-hop, numa canção que se estica numa viagem psicodélica. Ou uma fábula incompreensível sobre um pinto com peitos que vira um pop de lascar e que gruda deliciosamente nos ouvidos. Tudo funciona ainda melhor ao vivo, muito por causa da carga emocional que é despejada nos acordes de cada canção. Nada é inocente, nada é fora de lugar, nada acontece por acaso. A interpretação delas ao vivo está longe de ser uma simples demonstração de como se tocam as canções. É muito mais do que isso. É uma experiência que te leva pelo singular coração de Catatau e que entorpece a platéia por tudo que acontece. Não que seja alguma coisa muito óbvia, o show é bastante simples, quase monástico. Na verdade, tudo se passa num nível mais abaixo, mais sutil de ser percebido, mas que tem um impacto maior. Garanto que me atingiu. Voltei para casa refletindo um pouco mais e sentindo um pouco mais. Saí de lá um pouco mais Catatau.

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