sexta-feira, 30 de abril de 2010

Capítulo 1 – O ponto de partida de um ciclo

(Maria Helena Silveira · Recife, PE, 9/7/2006)

Lembra daqueles livros de infância que vinham com uma fita para você escutar a história? Substitua o livro por um encarte e a fita por um cd. Agora ligue o som, pegue o encarte e prepare-se para conhecer personagens que variam desde um menino que não queria chorar e por isso ligou pro presidente até a solidão de um homem na corda bamba. Uma voz inconfundível anuncia: “O ponto de partiiiidaaaaa”. Tem início o Ciclo da Dê.Cadência de Fernando Catatau e do Cidadão Instigado e, nosso leitor-ouvinte é transportado para esse outro mundo.

PARTE I – O põe.tu de parto.ida

Uma parceria de Lampião com Stevie Ray Vaughn, se o primeiro fosse músico e se ambos estivessem vivos em 2001. Acrescente um fortalezense com um sotaque carregado e uma voz meio desafinada dizendo bem alto “Ô coisinha tão bonitinha do pai. Ôôô coisinha linda. Ô Meu Deus do Céu”. Essa é “O verdadeiro conceito de um preconceito”, música de abertura do cd.

Os triângulos de Rian Batista juntamente com as congas de Simone Soul vão dando melodia a primeira faixa do cd. Tudo isso contando também com os que compõem o Cidadão Instigado só poderia ter um resultado: música de qualidade.

A autoria dos componentes desse Ciclo é somente de Catatau, exceto pela faixa seguinte, que é uma parceria com Regis Damasceno. “Lá fora tem um lugar que me faz bem e eu vou lá...”, vem com a base nos violões e uma letra simples que é recitada por Catatau com gemidos, gritos, agudos e afins.

PARTE II – Ir.luz.on

Enquanto escuta os três minutos iniciais de música instrumental, o leitor-ouvinte aproveita e acende um cigarro. Catatau então anuncia a história seguinte “O caboré e o presidente”. Em meio aos metais ele continua: “Minha gente agora vou lhes contar uma história diferente. De um menino que num queria chorar e ligou pro presidente”.

Ao longo dos quase doze minutos, Catatau vai conciliando o ritmo das palavras com o dos instrumentos e o personagem ganha vida na mente do leitor-ouvinte que está ali, escutando, lendo e vendo os desenhos.

Virando o encarte e seguindo as setas, ele acompanha agora a história de um cara que está no chão, caindo em falso, assoprando e continua lá, no “Chão”. Um reggae psicodélico chega e Catatau parece que está correndo mesmo até não ficar mais seguro.

PARTE III – Parte.indo o ser

“Chão” emenda com o narrador anunciando a próxima parte: “Partindo o ser”. Uma balada dançante começa. O leitor balança os pés e vai virando o encarte de ponta a cabeça e seguindo mais uma vez as setas para acompanhar a “Minha imagem roubada”. A brincadeira com as palavras e sílabas é escrita exatamente como Catatau vai contando “Di – di – gen – sim – ti – telé apenas eu e minha imagem roubada”.

Chega então “O homem na corda bamba”. Um cantador anuncia que “Olhares espaciais varam a noite na mesma triste agonia de um ser humano que arrasta um cobertor e que quando chega o frio convive sozinho com a própria dor”. Assim vai se desenrolando esse conto, e, a mistura de vários estilos característica do Cidadão Instigado, logo chega fazendo o leitor-ouvinte se deparar com algo inusitado. Para saber como esse conto termina, só perguntando ao leitor-ouvinte ou escutando você mesmo. Eu me reservo ao direito de não revelar.

PARTE IV – A mente.ira

As pessoas gritam e Catatau fala: “Zé Doidiimmmmmmmm – Você tem apenas uma máscara. Mas Zé Doidiimmmmmmmm – Toda máscara arrebenta no elástico”. Ele chegou. O tão famoso “Zé Doidim” (que voltará mais tarde em outra viagem, mas isso são cenas dos próximos capítulos, ou das próximas resenhas, se você preferir). É na faixa oito que esse personagem é apresentado pela primeira vez. Em quatro minutos Catatau conta quem é Zé Doidim e toca um reggae, mas dessa vez diferente do já citado. Um reggae intercalado com trechos instrumentais que têm os metais e a bateria como base.

O leitor-ouvinte então vira o mini-livro mais uma vez e lê na vertical “Você e eu”. O autor então recita uma espécie de poema com alguns efeitos sonoros.

Um baixo começa e sua base vai correndo solta durante o um minuto e meio de introdução da faixa dez. “Faith I don’t give it but hey rich man you’re still going to smell your own Wind”, com direito a um trecho em inglês Catatau vai contando uma crônica com o título de “Vento é dinheiro enquanto não sai por detrás e entra venta adentro”. Uma parte interessante dessa faixa é o diálogo com várias pessoas falando ao mesmo tempo, que aparece ao longo da música.

PARTE V – O põe.tu de parto.ida

Aquela voz inconfundível do início anuncia novamente “O ponto de partiiiidaaaaa”, mas dessa vez com um choro sofrido por ter chegado o final do Ciclo. Como não podia deixar de ser, o Ciclo acaba onde começa.

Catatau recita “Há decadência” ao mesmo tempo e em compassos diferentes. Com sons simples para que o leitor-ouvinte preste atenção no que está sendo falado. A forma como é escrito “decadência” no encarte é interessante e eu não vou lhe contar para despertar a sua curiosidade.

Virando pela última vez o mini-livro, na vertical agora ele acompanha “Todas as vozes do mundo” contando sobre o silêncio que é “A voz do mundo. É a voz pro surdo”. A faixa treze intercala entre partes faladas e outras cantadas. Esse jogo de Catatau é bem interessante e a forma como se decidiu compor esse casamento é bem sucedida.

Os quatro minutos finais vêm em meio a sons curiosos, gemidos e gritos com o Cidadão Instigado apresentando a versão elétrica de “Lá fora tem...”.

O leitor-ouvinte vê que agora está tudo em silêncio. Olha para o som e lá marcam exatos 64:38. Mais ou menos uma hora se passou e em meio aos devaneios de Fernando Catatau que lhe contou crônicas e contos além de ter lhe recitado poemas, ele olha para o lado e vê ali, “Cidadão Instigado e o método tufo de experiências”. Mas isso é outro capítulo...

(texto originalmente publicado no site O Dilúvio - http://www.odiluvio.com.br/)

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